
O homem é o lobo do homem, já dizia o filósofo inglês Thomas Hobbes. Poderia ter acrescentado: o humano é também algoz dos outros animais. O mesmo Rio Grande do Sul onde mais de 11 mil animais foram resgatados durante e após as enchentes de maio de 2024 assiste, agora, a uma investigação policial que identificou centenas de eutanásias de bichos num abrigo em Canoas. A suspeita é que eram mortos mesmo quando saudáveis, para evitar custos.
Depoimentos e documentos recolhidos pela Polícia Civi asseguram que quase 500 animais abrigados pela Secretaria de Bem-Estar Animal de Canoas foram mortos em sete meses. As eutanásias foram detalhadas por uma servidora numa agenda, apelidada pelos policiais de "Caderno da Morte".
Pelas anotações e testemunhos, bastava ter alguma doença que o animal era sacrificado. Mesmo quando houvesse possibilidade de cura, ressaltam depoimentos. A desconfiança dos policiais é que as mortes teriam motivação financeira, já que eram feitas campanhas de arrecadação de dinheiro para ajudar os pets. As investigações atingem uma ex-dirigente da secretaria e outros funcionários. Dinheiro vivo foi encontrado com os investigados, mas é preciso confirmar se a quantia é proveniente de ajuda.
Em alguns casos documentados, o animal de estimação foi enviado para tratamento no abrigo e foi submetido a eutanásia, mesmo sob apelos da tutora para ver o bichinho. Pedido desesperado e, segundo ela, jamais atendido.
A rigor, duas mortes de animais por dia num abrigo talvez não seja algo espantoso. O inadmissível é que testemunhas e alguns donos de animais declaram que seus pets estavam saudáveis e foram mortos. Isso, se comprovado, revelará uma premeditação horrenda.
Canoas ficou nacionalmente conhecida pelo cavalo Caramelo, resgatado após permanecer dias ilhado, durante as cheias, no telhado de uma casa. Agora a mesma cidade é palco da suspeita de mortes em séries de animais de estimação. São relatos de solidariedade e de crueldade, vivenciadas num mesmo cenário. Para o bem da humanidade, torço para que não seja verdade. Mas a frase de Hobbes permanece na minha memória.



