
Criado em abril, o Departamento Estadual de Repressão aos Crimes Cibernéticos ganha nesta sexta-feira (15) uma sede própria. Ficará na Avenida 24 de Outubro, 844, no coração de uma das regiões mais conhecidas e atingidas por esse tipo de delito em Porto Alegre.
Setores encarregados de coibir golpes virtuais sempre existiram na Polícia Federal e na Polícia Civil, mas essa última corporação decidiu dar o status de departamento à unidade responsável por combater esse tipo de crime porque o salto estatístico nos delitos é geométrico. Como mostra o Anuário Brasileiro da Segurança Pública, em 2024 as polícias brasileiras registraram 745 mil assaltos no país. O número é elevado, mas 15,2% menor que o do ano anterior. Enquanto isso, foram registrados 2,1 milhões de estelionatos, crescimento de 7,8% em relação a 2023. Esta transformação no modelo de crime praticado no Brasil vem ocorrendo há alguns anos. Há cinco, os golpes são mais numerosos do que os roubos.
Os estelionatos ultrapassaram os roubos pela primeira vez em 2020, não por acaso durante a pandemia. Diante da escassez de vítimas de assaltos nas ruas, os criminosos tiveram de se reinventar. E de lá para cá a curva dos golpes cibernéticos só aumentou, enquanto a dos ladrões que atuam fisicamente diminuiu. O fenômeno é brasileiro e também se repete no Rio Grande do Sul. Natural que a Polícia Civil tenha despertado para o fenômeno.
Outro fenômeno que impulsionou os estelionatos virtuais é o surgimento da chave Pix, comenta o diretor do Departamento de Repressão aos Crimes Cibernéticos, delegado Eibert Moreira Neto. O número de registros desse tipo de crime quintuplicou.
- O Pix é um método de pagamento que facilita muito nossas vidas, mas também a dos criminosos. Ela e a pandemia levaram a Polícia Civil a transformar a delegacia de Crimes Cibernéticos num departamento - acrescenta Eibert.
O delegado diz que o tamanho do problema é assustador, o que torna impossível investigar cada ocorrência. Cada uma delas é dividida em lotes, conforme o modelo de crime utilizado pelos delinquentes. São analisados padrões, diariamente. É usada Inteligência Artificial (IA) para verificar a repetição de táticas diferentes usadas pelos criminosos.
A IA também é usada para localizar e triar telefones usados em golpes e rastreá-los dentro de milhares de ocorrências. E também para verificar com quem esses telefones se comunicam. Dessa forma são identificadas quadrilhas inteiras.
Uma das grandes dificuldades é que esses grupos são interestaduais. Muitas vezes, até internacionais. As facções criminosas têm cooptado hackers para que cometam estelionatos, o que ajuda a nacionalizar os golpes. Eibert ressalta que a situação é bem diferente da dos ladrões de carro, que costumam roubar veículos nas cidades onde moram.
- Em regra, nos estelionatos os autores não agem na mesma região das vítimas. Fizemos 10 grandes operações em 10 Estados, desde abril. Fomos lá cumprir 40 mandados de prisão. Felizmente as autoridades do Ministério Público e do Poder Judiciário estão sensibilizadas para esse fenômeno e têm nos concedido autorizações de interceptação de comunicações, mandados de busca e inclusive de prisão - conclui Eibert.
São os novos tempos e a corrida dos policiais para tentar se adaptar a eles.

