
A Procuradoria-Geral da República (PGR) solicitou à Polícia Federal "policiamento em tempo integral" para monitorar Jair Bolsonaro. O ex-presidente da República está em prisão domiciliar e com tornozeleira eletrônica, mas pelo visto o procurador-geral Paulo Gonet considera isso insuficiente. Necessário lembrar que na semana que vem começa o julgamento da cúpula bolsonarista por tentativa de golpe de Estado.
Inquérito da PF apontou na semana passada "risco de fuga" de Bolsonaro, porque identificou, num dos celulares dele que foram apreendidos, o rascunho de um pedido de asilo à Argentina. Embora o documento seja de fevereiro de 2024, demonstra que pelo menos a possibilidade de o ex-presidente sair do país foi cogitada por ele ou por gente do seu entorno.
Na prática, a PGR, eu e você sabemos que tornozeleiras não impedem fugas. Apenas as dificultam. No ano passado, eu e o colega Lucas Abati mostramos mais de uma dezena de casos de líderes de facções criminosas do Rio Grande do Sul que fugiram após receberem permissão de uso do dispositivo eletrônico ou prisão domiciliar (ou ambas as situações). Basta conseguir romper ou destruir o equipamento.
Bolsonaro faria isso? A lógica indica que não, porque ele é um político. O mais provável é que prefira apostar no afrouxamento das medidas de prisão impostas a ele do que numa fuga. Mas existem precedentes no sentido contrário. Em 2024 ele passou duas noites na embaixada da Hungria no Brasil. Seria um ensaio para conseguir asilo? Ele e o premier húngaro Viktor Orbán se consideram irmãos na causa ideológica da direita.
Caso se dirigisse para uma embaixada estrangeira, Bolsonaro poderia permanecer lá, porque é considerada território do país que representa. Solicitar refúgio, salvo-conduto para viagem, algo do gênero. Há casos assim. Entre 2009 e 2010, o presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, permaneceu meses na embaixada brasileira em Tegucigalpa (capital hondurenha). Fez isso por temor de ser preso e permaneceu até conseguir deixar seu país em segurança.
Para aumentar as teorias da conspiração, semana passada um avião militar norte-americano pousou em Porto Alegre, vindo dos EUA e com passagem por Porto Rico. Trazia assessores diplomáticos para o consulado norte-americano, como flagrado pelo colega André Ávila. Chamou a atenção que não tinha insígnias com numeração visível e, também, pelo fato de ser usado eventualmente para transporte de pessoal discreto (como funcionários da CIA ou tropas especiais).
Estava tudo regular na aeronave, embora algumas fontes indiquem que a Receita Federal e a PF não foram avisadas com antecedência do pouso. Recebi telefonemas "assegurando" que seria um ensaio para uma possível escapada de Bolsonaro do país. Não acredito, mas resolvi pesquisar. O avião fez escala em São Paulo, Manaus e depois retornou aos EUA, onde permanece desde ontem em New Hampshire (numa base próxima a Nova York). Como se vê, não há limites para a imaginação popular.


