
A grande especulação do momento na área política e militar do Brasil é o pouso de um avião militar norte-americano em Porto Alegre, um Boeing 757-200 modificado, sem identificação externa. Ele aterrissou na noite de terça-feira (19) no Aeroporto Salgado Filho e deixou uma aura de mistério no ar, antes de seguir para São Paulo.
Falamos com seis fontes militares, policiais e diplomáticas para entender o voo e clarear os boatos. Confira aqui mitos e verdades sobre o voo que mexeu com a imaginação dos gaúchos:
Avião da CIA? - Sites chegaram a publicar que o avião, o Boeing C-32B de matrícula 00-9001, é do serviço de contra inteligência norte-americano (a CIA). Na verdade, a aeronave (uma versão militar do Boeing 757-200) é utilizado para transportar autoridades norte-americanas, civis e militares. E a informação é de que é usado, eventualmente, para transporte de agentes do serviço secreto e outras agências de espionagem. Ele chegou ao Rio Grande do Sul vindo de San Juan (Porto Rico, um protetorado norte-americano de fala espanhola). Antes disso saiu de uma base aérea em Nova Jersey (EUA), passando por Tampa (também no território norte-americano). Da capital gaúcha seguiu para São Paulo e Brasília.
Checamos e nos foi relatado que não é corriqueiro o transporte de pessoal diplomático em aviões militares. O usual é que usem aeronaves comerciais, de linha aérea.
Agentes secretos ou diplomatas? - Outro boato é de que o pouso em Porto Alegre foi para desembarcar agentes secretos. A embaixada dos EUA e o consulado norte-americano em Porto Alegre confirmaram que se tratam de servidores públicos:
" A aeronave ofereceu apoio logístico à Missão Diplomática dos Estados Unidos no Brasil e sua chegada foi autorizada pelas autoridades brasileiras competentes", diz nota da Embaixada dos EUA.
Falamos com pessoas que acompanharam a chegada dos norte-americanos. Não são militares de carreira, mas civis a serviço da diplomacia dos Estados Unidos. Seis deles fizeram a imigração na capital gaúcha, ou seja, desembarcaram aqui. Não tinham o porte típico, atlético, dos integrantes das Forças Armadas, inclusive em sua maioria são de meia idade e trajados a rigor. Declararam ser parte de um reforço de funcionários para o corpo diplomático no Brasil. "O que não exclui que sejam de algum serviço de inteligência, porque o agente secreto não tem carimbo designando essa sua atividade", ressalta um policial ouvido pelo colunista. Todas as grandes representações diplomáticas no mundo incluem policiais, militares e agentes de inteligência.
É contra o Brasil? - Chama a atenção que o Boeing militar foi deslocado num contexto de tensão diplomática entre os EUA e o Brasil. Durante décadas, a América Latina não foi prioridade para a diplomacia norte-americana. Isso parece ter mudado no novo governo de Donald Trump, que começou este ano. O discurso é de enquadrar os latinos aos padrões norte-americanos, seja na parte comercial, política ou até policial. No caso brasileiro, o foco do momento é apontar o ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro como vítima de uma perseguição judicial (ele será julgado, em setembro, por tentativa de golpe de Estado). Trump sobretaxou em 50% vários produtos de exportação brasileiros, como represália pelo que considera autoritarismo do Supremo Tribunal Federal brasileiro.
Preparativo para invasão à Venezuela? - O avião com funcionários americanos chega ao Brasil num momento em que um país situado na nossa fronteira, a Venezuela, está sob vigilância militar norte-americana. O presidente dos EUA, Donald Trump, ofereceu esta semana US$ 50 milhões de recompensa aos que ajudarem a derrubar o presidente venezuelano Nicolás Maduro, a quem chama de ditador. Para mostrar que não está brincando, os Estados Unidos posicionaram três navios de guerra próximo à costa da Venezuela: os destroieres USS Gravely, USS Jason Dunham e USS Sampson. Eles contam com helicópteros e poderiam apoiar o desembarque de 4 mil militares, se isso for ordenado.
O Brasil não está imune a esse cenário, tanto que está prestes a realizar a Operação Atlas, manobra militar na região norte, próxima à Venezuela. Ela vai mobilizar 400 viaturas leves e pesadas, incluindo 40 blindados, helicópteros e 10 mil militares.


