
A Marinha brasileira cancelou a Operação Formosa 2025, treinamento anual realizado a cerca de 80 quilômetros de Brasília. O exercício deveria contar com participação de militares norte-americanos e seria realizado em setembro.
São duas as justificativas para o cancelamento. A principal é financeira: cortes orçamentários atingem as Forças Armadas no momento. O segundo é que parte do esforço será canalizado para envio de militares que serão responsáveis pela segurança dos chefes de Estado na Conferência do Clima (COP 30), que ocorre em Belém, entre os dias 10 e 21 de novembro.
Há igualmente indecisão em relação à Operação Core (sigla em inglês para Combined Operation and Rotation Exercise), que deveria reunir tropas do Exército do Brasil e dos EUA em novembro, na caatinga, entre Petrolina (PE) e Juazeiro (BA). A possibilidade é que os norte-americanos não venham e um possível adiamento da ação militar brasileira é cogitado, também por restrições orçamentárias.
Chama a atenção que o corte da operação da Marinha e a cogitação de adiamento da ação do Exército (ambos com participação de militares norte-americanos) ocorre em meio ao momento de maior estresse diplomático entre EUA e Brasil desde que os dois países surgiram, há mais de dois séculos. Como o leitor sabe, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ordenou sanções de 50% sobre uma série de produtos comerciais brasileiros. Justificou isso, entre outros motivos, como represália contra o que considera perseguição do Judiciário e do governo brasileiros ao ex-presidente Jair Bolsonaro, com quem está alinhado.
Lógico que os militares brasileiros não gostam nem um pouco desse distanciamento. Os Estados Unidos são parceiros tradicionais, tanto em manobras (incluindo as operações Unitas e Cruzex, das Forças Aéreas dos dois países) como em intercâmbio de oficiais e parcerias comerciais. Nos quartéis, o desejo é que o impasse diplomático seja resolvido o quanto antes. O temor é que seja prejudicado o Foreign Military Sales (FPS), um programa pelo qual os norte-americanos vendem equipamento militar a preços acessíveis.
Enquanto as relações com os EUA estão em compasso de espera, os militares brasileiros se preparam para a grande manobra do ano. Ela acontecerá no norte do país, sobretudo junto à fronteira com a Venezuela. É a Operação Atlas 2025, exercício militar que reunirá tropas do Exército, Marinha e Aeronáutica brasileiros de 2 a 11 de outubro. A ação ocorrerá nas regiões de Roraima e da foz do Rio Amazonas (próximo a Belém). Os preparativos são gigantes. Serão mais de 10 mil militares, 40 blindados e pelo menos 400 viaturas, que se preparam desde o início do ano para este momento.
Não é mera coincidência o fato de a manobra se concentrar próximo à Venezuela. No final de 2023, o governo venezuelano anunciou a intenção de anexar Essequibo, uma região de selva rica em petróleo e ouro, pertencente à Guiana. O problema, para os brasileiros, é que o único jeito dos venezuelanos chegarem por terra a Essequibo seria passar pelo território brasileiro, em Roraima. Algo que o Brasil não cogita permitir.
Já são meses de deslocamento de pessoal e equipamentos para Roraima, um tremendo esforço logístico. Do Rio Grande do Sul, por exemplo, foram enviados os poderosos obuseiros autopropulsados M109A5 desde Cruz Alta, onde fica o 29º Grupo de Artilharia de Campanha Autopropulsado. O apoio é do 3º Batalhão de Suprimento de Nova Santa Rita.
A coincidência do momento é que a Venezuela passa por novo foco de tensão. O presidente norte-americano autorizou recompensa de US$ 50 milhões para quem derrubar o presidente venezuelano Nicolás Maduro, acusado pelos EUA de ser traficante e ditador. Em paralelo, a Marinha norte-americana chegou a deslocar seis navios de grande porte para as proximidades do litoral venezuelano. Eles contam com helicópteros e mais de 4,5 mil fuzileiros e marinheiros. Deram meia volta como precaução contra um furacão no Caribe, mas podem retornar à região. Como se vê, a conjuntura geopolítica não poderia ser mais realista para os militares brasileiros que participarão da Operação Atlas.



