
O congresso anual da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) abriu espaço na semana passada para o lançamento de uma obra fundamental para quem deseja mergulhar nessa vertente da profissão. É o livro Na Ponta da Linha, do jornalista André Rohde, que tem quase quatro décadas de carreira televisiva, entre as redes Globo, Record, Manchete e SBT.
O subtítulo do livro, com 340 páginas entremeadas por fotos, bem que poderia ser sangue, tiro, porrada...e jornalismo. Gaúcho de Lajeado, mas com faculdade feita em Santa Catarina, Rohde passou a maior parte do tempo naquele setor das redações encarregado de divulgar notícias sobre gente que não quer aparecer no noticiário. Contrabandistas, traficantes, policiais corruptos, mineradores ilegais, depredadores do meio ambiente, militantes de seitas extremistas...Fez campana e usou microcâmera, como os policiais e alguns jornalistas investigativos o fazem. Mas também apareceu bastante na telinha, sobretudo na segunda fase da carreira, quando produziu muito material para o Fantástico da Rede Globo e o Domingo Espetacular da Record.
Como cartão de apresentações da obra, três viagens a Angola durante a guerra civil que sacudiu aquela nação africana entre 1975 e 1992. Numa delas, aliás, Rohde e eu estivemos juntos. Tempos de cuidado contra as balas, para não ser sequestrado, para não pisar em minas e para driblar os mosquitos da malária e da febre amarela. Numa dessas incursões, para minha admiração, ele conseguiu uma entrevista exclusiva com o chefe da guerrilha Unita, Jonas Savimbi, que durante três décadas tentou derrubar o governo angolano e acabou morto por isso.
Rohde atuou muito em São Paulo, de onde seguidas vezes foi às fronteiras do país. No Paraguai, flagrou contrabandistas e acompanhou eles nas travessias rumo ao Brasil. Na Amazônia, gravou devastações cometidas pelos madeireiros. Na capital paulista, mergulhou no universo de militantes neonazistas.
Outros pontos de destaque do livro se passam no Rio de Janeiro, onde Rohde atuou por décadas. Ele dá uma aula aos focas (jornalistas novatos) sobre paciência para flagrar traficantes. Sobre como disfarçar o uso da câmera-oculta. Sobre como negociar com um bandido uma entrevista. Sobre como trocar informações com policiais, promotores e juízes, para fazer crescer a reportagem até o momento da sua veiculação. São capítulos e mais capítulos sobre a rotina do submundo na cidade-símbolo do Brasil.
Rohde também cobriu desastres naturais, como as enchentes em Santa Catarina, estado onde está radicado atualmente. Na Ponta da Linha é um resumo da sua trajetória e uma ponte para voos futuros. Uma obra que vale a leitura.





