
A chave para responder a pergunta que encabeça esta coluna é descobrir o quanto Jair Bolsonaro está disposto a avançar, sem perder a liberdade. Nos últimos dias, mesmo após ser obrigado a usar tornozeleira eletrônica e ter o horário para sair de casa restringido, o ex-presidente tem multiplicado as entrevistas e subido o tom das críticas ao Supremo Tribunal Federal (STF). O filho Eduardo, deputado federal licenciado e há meses morando nos EUA, vai além e desafia delegados da Polícia Federal que investigam sua família, além de avisar que as represálias norte-americanas ao Brasil vão aumentar se o seu pai não for beneficiado por uma anistia.
Parece ser uma tentativa de esticar a corda, até que algum dos Bolsonaro (ou ambos) tenha decretada a prisão preventiva. Num cálculo político, favoreceria o discurso de que os "lutadores da liberdade" (como o governo Trump define os bolsonaristas) são perseguidos pelo Judiciário. Pode funcionar para radicalizar seus seguidores.
Só que cadeia significa, por óbvio, menos mobilidade e menos palco para incendiar a retórica anti-sistema. Sem falar na desagradável perspectiva de ficar trancado, vendo o sol nascer quadrado. Jair Bolsonaro irá a tanto? Num curto prazo, ele perde a batalha.
Já a guerra está longe de ser decidida. A médio prazo os bolsonaristas apostam na tentativa de minar a credibilidade do ministro Alexandre de Moraes (relator no STF da ação penal que investiga tentativa de golpe de Estado em 2022). O magistrado tem dado seguidos despachos, alguns deles confusos, que tolhem cada vez mais a liberdade física e tentam conter a oratória de Bolsonaro. Afinal, o ex-presidente está proibido de dar entrevistas? Se não está, como impedir que outros as veiculem nas redes sociais? Não ficou claro, embora a intenção de Moraes seja visível, impedir que o bolsonarismo se retroalimente via discursos inflamados.
A verdade é que Moraes tem evitado decretar a prisão preventiva de Bolsonaro, para não lhe dar munição. Mesmo tendo optado por restrições menos drásticas que a cadeia, o magistrado não tem apoio total no STF. O ministro Luiz Fux divergiu de Moraes nas restrições impostas a Bolsonaro, consolidando um movimento que pode virar cisão durante o julgamento da ação penal por golpe de Estado. Ele considera que a Polícia Federal não provou intenção de fuga do ex-presidente e que as manifestações bolsonaristas nas redes sociais estão dentro do permitido pela liberdade de expressão.
Fux poderá ver o Mickey na Flórida, já que seu visto para ingresso nos EUA continua válido (o dos colegas mais avessos ao bolsonarismo foi suspenso). Mesmo que o ministro venha a votar pela absolvição de Bolsonaro, a tendência é que o ex-presidente seja condenado por ampla maioria. Mas as vozes dissonantes no STF (existem outros magistrados em dúvida, nesse caso) reforçam argumentos dos que acusam o Judiciário de perseguição aos políticos de extrema-direita.

