
Na ânsia por ajudar seu parceiro de ideias Jair Bolsonaro, o presidente norte-americano Donald Trump determinou que o Departamento de Estado revogue os vistos de oito ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) brasileiro. Estão agora impedidos de visitar os EUA os magistrados Alexandre de Moraes, Luís Roberto Barroso, Dias Toffoli, Cristiano Zanin, Flávio Dino, Cármen Lúcia, Edson Fachin e Gilmar Mendes (além de familiares deles). Escaparam das sanções os ministros André Mendonça, Luiz Fux e Nunes Marques, justamente os que expressam dúvidas quanto ao processo que Bolsonaro enfrenta por tentativa de golpe de Estado.
Trump seguiu, no momento, dica de Flávio Bolsonaro, o filho mais velho do ex-presidente Jair: sanções individuais a autoridades que se opõem à anistia para seu pai. Com isso, evitaria que todo o povo brasileiro fosse punido, como acontece na imposição de tarifas de 50% às importações de produtos do Brasil, já anunciada pelo presidente norte-americano e que começa a valer em agosto.
A represália de Trump vai parar aí? Duvido que alguém saiba, porque o presidente dos EUA costuma agir de improviso. São três os cenários geopolíticos que se desenham: tarifaço, sanções ou negociação.
Primeiro é preciso diferenciar os termos. Tarifaço é um aumento de tarifas aduaneiras, geralmente aplicado sobre produtos importados. Uma medida protecionista para retaliação em disputas comerciais. Já sanção é uma medida punitiva (diplomática, econômica ou até militar, como embargo de venda de armas). Uma pressão política contra países que supostamente violam regras internacionais. Trump ameaça adotar as duas.
O tarifaço de 50% sobre produtos brasileiros já está anunciado, mas há dúvida se irá se concretizar. Isso porque Trump já anunciou medidas semelhantes contra México e Canadá (importantíssimos parceiros comerciais dos EUA, assim como o Brasil), disse que entrariam em vigor rapidamente e depois recuou quanto aos prazos. Todos devem enfrentar a medida até agosto, a menos que o presidente norte-americano entre em negociação.
A imposição de tarifas não começou, mas já provoca efeitos negativos. Desde que foi anunciada a medida, investidores estrangeiros sacaram R$ 4,5 bi da B3, a bolsa de valores de São Paulo. Por precaução e medo.
Negociação é o que o empresariado brasileiro mais quer. Os EUA importam, entre outros itens importantes, café, laranja, minerais e carne do Brasil. E os exportadores brasileiros não estariam dispostos a sacrificar isso em nome de Bolsonaro. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sabe disso e sugere que negociem com o governo norte-americano. Há espaço para diálogo, porque o tarifaço atinge também interesses de setores industriais norte-americanos. A perda seria de mão dupla, para brasileiros e ianques.
Só que no momento o cenário não é de negociação, vai no rumo oposto. Especialistas em relações internacionais falam que um elenco de represálias ao Brasil repousa sobre a mesa de Jason Miller, conselheiro da Casa Branca e interlocutor dos Bolsonaro em seguidas visitas aos EUA. Algumas cogitações, segundo o analista Lourival Santanna, da CNN Brasil:
Veto a voos - estaria sendo estudada restrição a voos de aeronaves de companhias brasileiras para os EUA. Uma medida radical, pouco provável, mas atemorizante.
Congelamento de ativos - autoridades brasileiras teriam o dinheiro depositado em bancos norte-americanos congelado. É um instrumento clássico de sanção, que tem sido usado contra russos. Bastaria para isso que o governo dos EUA pressionasse instituições bancárias e financeiras, e essas personalidades (magistrados e procuradores, entre eles) não teriam mais acesso a dólares.
Esfriamento de relações diplomáticas - a diplomacia entre EUA e Brasil está num dos momentos mais baixos em 200 anos de história. Há informes de que foi tentada uma aproximação de pessoal da embaixada brasileira com o Departamento de Estado, mas a reunião não foi marcada. Um esfriamento proposital, após as punições impostas pelo STF a Jair Bolsonaro.
Passe livre para os Bolsonaro - os Bolsonaro são definidos como "lutadores da liberdade" pelos estrategistas da Casa Branca. O próximo passo seria uma aceleração (fast-track) do procedimento de visto de residência para Eduardo Bolsonaro, na Flórida. Além de total boa vontade para com Jair Bolsonaro, caso ele queira e tente refúgio nos EUA.
Qual dessas medidas será adotada? Todas? Nenhuma? Em se tratando de Trump, incógnita. Mas a família Bolsonaro pressiona para que todas venham, já que a perspectiva para o ex-presidente Jair é de restrição cada vez maior, talvez prisão, nos próximos meses.




