
O tarifaço é menos grave do que cogitado após o anúncio bombástico de Donald Trump há três semanas. Um dos setores que poderia ter suas finanças abatidas, o da produção e venda de aviões, foi poupado na lista de sobretaxa de 50% a produtos brasileiros divulgada na quarta-feira (31) pelo governo norte-americano. Pelo menos, por enquanto.
Ao escapar das sanções, a Embraer permitiu aos integrantes da Aeronáutica um respiro de alívio. O cargueiro militar KC-390, desenvolvido por essa indústria nacional em parceria com a FAB (Força Aérea Brasileira), tem cerca de 50% de seus componentes fabricados nos Estados Unidos. Já os caças suecos Gripen, adquiridos pelo Brasil, por exemplo, contam com aproximadamente 30% de componentes de origem norte-americana. Pelo menos no momento, estão a salvo da sanção anunciada por Trump.
Já outros proeminentes fabricantes da indústria bélica nacional sofrem. A Taurus, indústria de armas e munições que tem fábrica em São Leopoldo (Rio Grande do Sul), foi atingida em cheio. Essa empresa exporta 82,5% de sua produção para os EUA. Não é um problema militar, mas é um indicativo do que pode acontecer.
As Forças Armadas receiam uma escalada nas sanções dos Estados Unidos contra o Brasil, porque medidas mais severas teriam impactos "graves" sobre projetos estratégicos da base industrial de defesa. Um dos receios é de embargos sobre componentes americanos, essenciais para a indústria bélica nacional. Além de projetos, a própria manutenção de equipamentos já em uso poderia ser afetada. Os militares brasileiros contam, por exemplo, com helicópteros Black Hawks norte-americanos e sistemas de mísseis que usam componentes fabricados nos EUA.
Na Marinha, motores e sistemas de navegação de grande parte da frota são de tecnologia americana. Meninas dos olhos da força naval, o Programa de Desenvolvimento de Submarinos (Prosub) e o Programa Nuclear da Marinha (PNM) também contam com tecnologia norte-americana.
Militares têm por dever traçar cenários de conflitos e essa questão está posta na mesa, embora não acreditem numa ruptura e apostem que os dois governos entrarão em negociações. Mas prevenir é necessário. Uma possibilidade seria diversificar fornecedores de material bélico, mas isso leva tempo e esses próprios fabricantes, muitas vezes, contam com matéria-prima norte-americana em seus artefatos. Não há saída fácil.
Há também preocupação com a tradicional cooperação entre as Forças Armadas brasileira e norte-americana. O programa FMS (Foreign Military Sales), por exemplo, permite a compra de equipamentos militares de segunda linha por preços mais baixos do que os praticados no mercado internacional.
Existe também intercâmbios de treinamento e colaboração entre militares dos dois países. Existem as tradicionais manobras de adestramento, sobretudo no Exército e na Força Aérea. E, além disso, tratativas bélicas, como o Acordo de Projetos de Pesquisa, Testes e Avaliação, assinado em 2020 por Jair Bolsonaro (na época, presidente) com Donald Trump (em primeira gestão). Ele permite reduzir a burocracia nas aquisições de armas. Em 2019, Brasil e EUA já tinham assinado acordo de salvaguardas tecnológicas para permitir aos norte-americanos o eventual uso da base de Alcântara (no Maranhão) para o lançamento de foguetes dos EUA.
Esse cenário está em risco? Talvez não, mas só ficaremos sabendo após as próximas semanas de negociação diplomática e comercial.

