
Passa pelo Rio Grande do Sul uma ponte importante da suposta tentativa de golpe de Estado em 2022. O tenente-coronel do Exército Hélio Ferreira Lima admitiu na segunda-feira (28) ter elaborado um plano de "neutralização" de autoridades após a eleição do atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Ele ressalva que não fez isso como trama golpista favorável ao ex-presidente Jair Bolsonaro, mas apenas como um estudo de inteligência militar destinado à construção de cenários, caso fosse constatada fraude eleitoral.
Lemos o depoimento do oficial, que está preso há nove meses. O estudo seria enviado ao comando da 6ª Divisão do Exército, em Porto Alegre, onde ele atuava na época.
Carioca, Hélio Ferreira Lima é um destacado Kid Preto, como são chamados os oficiais da tropa de elite do Exército. Após deixar o Sul, ele comandou uma das unidades mais preparadas das Forças Armadas, a 3ª Companhia de Forças Especiais em Manaus. Foi destituído de sua posição em fevereiro de 2024, durante investigações sobre planos antidemocráticos relacionados ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Lima foi interrogado no Supremo Tribunal Federal (STF) como réu do núcleo 3 da trama golpista, acusado praticar ações operacionais em prol do golpe e de promover uma campanha para convencer o alto comando das Forças Armadas a aderir ao complô.
Em 2022 Hélio Lima estava lotado como oficial de inteligência da 6ª Divisão do Exército, com a atribuição de abastecer o comandante com cenários hipotéticos sobre diversos assuntos. Ele reconheceu ter escrito um documento no qual é cogitada a prisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Conforme o oficial, isso se daria caso ficasse constatada omissão do STF ante fraude no processo eleitoral para garantir vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Encontrado pela Polícia Federal num pen drive do tenente-coronel, o documento previa 'reestabelecer a lei e a ordem por meio da retomada da legalidade e da segurança jurídica e da estabilidade institucional'. A Procuradoria-Geral da República estranha que nesse documento não havia previsão de legitimar um governo ligado a ideologias de esquerda".
A planilha continha projeções para ações que englobam o período de dezembro de 2021 a agosto de 2023. Entre elas, "neutralizar a capacidade de atuação do Min AM", em referência ao ministro Alexandre de Moraes. Isso depois viria a se configurar no plano Punhal Verde Amarelo", organizado pelo general Mário Fernandes, outro que está preso. Para a PGR, o plano cogitava prisão e até assassinato, tanto de Moraes como de Lula.
Hélio Ferreira Lima também confirma ter ido com o tenente-coronel Rafael Martins de Oliveira (também preso) e o então ajudante de ordens de Bolsonaro, o tenente-coronel Mauro Cid, até a casa do general Walter Braga Netto — ex-ministro da Defesa e da Casa Civil.
O tenente-coronel Rafael, aliás, é acusado de pedir R$ 100 mil para levar manifestantes do Rio a Brasília no intuito de pressionar pelo golpe em frente a quartéis.
E o que diz Lima? Tem resposta para quase tudo. Nega ter ido a Brasília para monitorar o ministro Alexandre de Moraes. Disse que foi lá mobiliar o apartamento de um filho. Mas concorda que participou de reunião com os colegas de farda e Braga Netto.
Hélio Lima afirma que o documento apreendido pela PF era apenas um "desenho operacional" destinado a indicar cenários futuros sobre acontecimentos que possam ser de interesse militar. Isso faria parte da função da inteligência militar, alega.
Questionado por que o documento considerava como "ameaça" apenas uma possível fraude por parte de "grupos de esquerda", Lima respondeu que foi a esquerda que venceu as eleições, e que "fraude em favor dos derrotados (o bolsonarismo) não faria sentido", disse, acrescentando que o oficial de inteligência militar não tem lado. Ele nega que tenha recebido ordens para elaborar o documento e diz que sequer despachou o material para seus superiores. Teria sido aconselhado pelo comandante da 6ª Divisão a "deixar as proposições para a gente olhar depois e focar nessa possibilidade de tirar os manifestantes que se reuniam em frente ao quartel-general no Rio Grande do Sul".
Apuramos que o comandante da 6ª DE na época era o general Alcides Valeriano de Faria Junior, que chefiava a comunicação social do Exército até semana passada e será o novo Comandante Militar do Oeste. O Comandante Militar do Sul, na época em que Ferreira atuou aqui, era o general Fernando Soares. Na época, questionamos o general Soares sobre assessores dele que eram investigados e ele negou tê-los orientado em qualquer posição golpista.
O que diz o Exército
Falamos com lideranças das Forças Armadas. Um general considera o depoimento de Hélio Lima pura estratégia de defesa, um direito dos réus. Isso inclui usar farda no depoimento, "digitalizar pensamentos" e "fazer esboço de inteligência" sem que o chefe tenha pedido e contemplando só um lado do espectro eleitoral. Típicas manobras evasivas de defesa, tentando obter solidariedade no Exército e comprometê-lo com golpismo, considera esse oficial graduado.


