
Jair Bolsonaro está virtualmente preso. O que o diferencia dos detentos nos presídios é que está numa prisão sem grades. Por determinação do Supremo Tribunal Federal (STF), terá de usar tornozeleira eletrônica, está proibido de deixar a residência do anoitecer ao amanhecer e nos fins de semana, não pode acessar redes sociais e sequer se comunicar com outros réus no processo a que responde por tentativa de golpe de Estado. Existiria ainda um veto a que se comunique com seu filho Eduardo, que está nos Estados Unidos, em campanha por sobretaxa a produtos brasileiros como pressão para que seu pai seja anistiado.
A colocação de tornozeleira eletrônica e as restrições impostas pelo STF foram pedidos da Polícia Federal, que vê risco de fuga de Bolsonaro para escapar do julgamento. Até por isso, o ex-presidente está proibido também de se aproximar de embaixadas estrangeiras, onde poderia pedir asilo. Ele sequer pode se comunicar com embaixadores e diplomatas estrangeiros.
Para um ser político como Bolsonaro, esse tipo de restrição representa corte quase total nas chances de influenciar nos rumos eleitorais da direita e da extrema-direita no país. Claro que sempre poderá se comunicar de alguma forma - algo comum num país em que chefes do crime organizado ordenam homicídios. Mas sem passaporte, sem liberdade de movimentos, sem poder se manifestar nas redes, o espaço de influência fica escasso.
A verdade é que o STF tomou as medidas por achar que Bolsonaro aderiu à chantagem do presidente norte-americano Donald Trump contra o Brasil. Primeiro foi o filho Eduardo que disse nas redes sociais, direto dos Estados Unidos, que o caminho para evitar as represálias comerciais dos EUA era um só: anistia ao pai dele e a todos os acusados de tentar golpe de Estado em 2022/23. Depois foi o próprio Jair Bolsonaro quem declarou: "o Brasil tem como chegar a uma solução disso. O Trump está mostrando o que ele quer...Me restitua o passaporte que eu converso com ele", declarou o ex-presidente brasileiro, em entrevista à CNN.
Se a intenção de Bolsonaro era polemizar, o STF pagou para ver. No momento em que escrevo, a última notícia é que encontraram milhares de dólares na residência do ex-presidente, o que é visto pela PF como indício de preparativos para sair do país. Mas prisão em flagrante não aconteceu até agora e as medidas devem se limitar à restrição de mobilidade e manifestação. Por enquanto.

