
A imagem obtida e divulgada pela colega Adriana Irion deixa poucas dúvidas e mostra mais uma vez o poder das câmeras para elucidar episódios nebulosos, com várias versões. No vídeo, Geovane Matias Maciel, um homem com prisão preventiva decretada pela suspeita de ter cometido diversos crimes, leva tiros, mesmo estando algemado e com as mãos para trás. Os disparos, quatro ao todo — dois depois dele ser algemado, foram feitos por um PM. O episódio ocorreu em 4 de março em Bom Jesus, nos aprazíveis Campos de Cima da Serra. A explicação inicial dada pela guarnição da Brigada Militar envolvida no caso é de que o rapaz teria reagido à prisão, inclusive desferindo uma facada no colete balístico do soldado. O brigadiano diz ter reagido à bala, em legítima defesa sua e dos colegas.
Só em junho surgiu o vídeo, filmado por uma pessoa que compreensivelmente quer permanecer anônima. E o cenário mudou. As imagens fizeram a Justiça decretar a prisão preventiva do soldado PM que faz os disparos, Emerson Brião.
Tanto a defesa de Brião como o depoimento dos seus colegas de patrulha ressalta que Geovane era uma pessoa violenta e ameaçadora. A prisão dele tinha sido decretada por suspeita de ter ateado fogo na casa da ex-companheira, além de estar fazendo ameaças contra ela. Tinha também antecedentes por furtos e roubos.
Os antecedentes ajudam na defesa dos PMs, mas o fato é que a lei não permite matar alguém porque responde por crimes. A morte só é tolerada em legítima defesa, um atentado contra a vida dos policiais, mas o que as imagens mostram é Geovane já rendido, manietado e sendo baleado.
Não é primeira vez em que versões policiais são desmentidas por imagens. Em maio de 1987 o operário Júlio César de Melo Pinto foi confundido com um assaltante de supermercado, em Porto Alegre. Isso aconteceu porque ele era epilético e teve uma convulsão ao testemunhar o tiroteio entre PMs e ladrões que roubavam o estabelecimento comercial. Ao ver Júlio César caído, policiais militares pensaram que era um dos criminosos, o algemaram e o levaram para dentro de uma viatura, aos socos.
O fotojornalista Ronaldo Bernardi, de Zero Hora, documentava o assalto e flagrou Júlio César, já com a boca sangrando pelos socos, ser levado num Fusca da BM. Teve a ideia de ir até a Área Judiciária da Polícia Civil para mostrar a chegada do operário preso. Esperou muito e ninguém chegou. Avisaram ao fotógrafo que um homem baleado no assalto ao supermercado estava sendo levado ao Hospital de Pronto Socorro (HPS) e ele se deslocou até lá. Conseguiu fotografar o exato momento em que o corpo de Júlio César, todo perfurado a tiros, era transportado numa maca.

As imagens, divulgadas por Zero Hora, evidenciaram que Júlio César saiu sem nenhum ferimento a bala do supermercado e chegou morto ao hospital. O episódio ficou conhecido como o Caso do Homem Errado e resultou em dois julgamentos pelo Tribunal de Justiça Militar do Estado. Na primeira, dois tenentes foram condenados a 14 anos de prisão e dois cabos e quatro soldados, a 12 anos. Na segunda, um dos tenentes foi absolvido. Os condenados foram expulsos da corporação e cumpriram apenas parte de suas penas.
Tudo indica que o PM autor dos tiros em Bom Jesus será submetido a um júri tão polêmico quanto o do Homem Errado.



