
Um dos maiores especialistas em guerras gaúchas, o cientista político Cláudio Júnior Damin, professor da Unipampa, acaba de lançar "Histórias Reais da Revolução Federalista de 1893". São 152 páginas e 11 episódios, ilustrados com fotos, que devorei em três horas de leitura.
Claro que é preciso um pouco de estômago e nervos para digerir esse tipo de obra. A guerra civil que opôs maragatos (revoltosos) e pica-paus (governistas) entre 1893-1895 foi tão devastadora que alguns historiadores se recusaram a fazer livros a respeito. Estima-se que ela tenha provocado a morte de 10 mil gaúchos - mil dos quais por degola. O corte do pescoço do adversário era feito por diversos motivos: humilhação, terror e, também, para economizar munição.
O conflito começou quando o governo do inflamado republicano Júlio de Castilhos foi acossado por uma guerrilha de opositores. Alguns deles nostálgicos da monarquia, outros apenas parlamentaristas. Quase todos, fazendeiros revoltados com o autoritarismo governamental que vigorava tanto no Rio Grande do Sul como no Brasil (onde um golpe de Estado derrubou o Império e instaurou a República, quatro anos antes da guerra gaúcha). Estava pronto o palco para a chamada Revolução Federalista.

Os opositores, chamados maragatos, eram liderados politicamente por um ex-conselheiro do Império, Gaspar Silveira Martins, e militarmente por vários caudilhos, dos quais os mais famosos eram Joca Tavares (veterano da guerra do Paraguai) e Gumercindo Saraiva (meio uruguaio, meio brasileiro). Ambos acusados de ordenar diversas degolas de prisioneiros, a mais famosa delas em Rio Negro (atual Hulha Negra).
Já os governistas se organizavam em torno de Júlio de Castilhos, governador e líder do Partido Republicano Rio-Grandense, que recebeu apoio de fazendeiros com milícias privadas, como os generais honorários (e irmãos) Salvador e José Gomes Pinheiro Machado, o general Francisco Rodrigues Lima e o coronel Firmino de Paula, afamado por ordenar o maior massacre nessa cruenta guerra, com 370 degolados num único episódio, onde fica o atual município de Chapada.
Castilhos contava também com a recém-criada Brigada Militar, que dispunha de armamento moderno. O resultado foi um banho de sangue entre os revolucionários maragatos (com lenço vermelho, a maioria) e pica-paus (assim chamados porque usavam uniformes azuis e quepes vermelhos, parecidos com a plumagem daquelas aves).
O historiador Damin, professor da Unipampa, tem vários livros sobre 1893, mas dois são imprescindíveis. Um deles é o já citado "História Reais da Revolução Federalista", em que reúne fatos pouco conhecidos, como a tomada de cidades fronteiriças, assaltos a trens, planos de envenenamento de líderes guerreiros. Tudo muito documentado.
O outro livro é "Triste fim de Gumercindo Saraiva", no qual ele aborda a morte do mais famoso líder maragato e as mutilações sofridas pelo cadáver. Que teve pedaços enviados ao governador Júlio de Castilhos, como troféu. Para quem acha que vivemos tempos violentos, recomendo a leitura desses e outros livros a respeito (como o já clássico A Cabeça de Gumercindo Saraiva, dos jornalistas Tabajara Ruas e Elmar Bones). Verão que o faroeste era aqui, nas terras rio-grandenses.






