
A pecuária brasileira atravessa um momento de valorização, mas com desafios importantes. Barreiras comerciais, como a cota chinesa e as restrições impostas pela União Europeia, pressionam a indústria e exigem ajustes na produção. No mercado interno, a valorização da carne ocorre em meio ao avanço do endividamento das famílias. Em meio a esse cenário, Fabiano Tito, diretor de Compra de Gado Latam da Minerva Foods, multinacional do ramo, analisou o atual momento da pecuária no Campo e Lavoura da Gaúcha deste domingo (6). Confira trechos.
Muito se falou na Expointer do momento de valorização da pecuária. Vocês compartilham dessa leitura de cenário?
Acreditamos nesse momento de inversão do ciclo (pecuário), de retenção de fêmeas, na maior parte do Brasil, em função da valorização da cria. A retomada de investimento nessa atividade tem um reflexo de reduzir a oferta de gado para abate e ajudar na sustentação do preço dos animais terminados, mas é um movimento extremamente necessário. Quando pensamos no longo prazo, precisamos voltar a produzir bezerro, a atividade precisa voltar a se expandir. Senão vamos para um movimento igual ao que estamos vendo nos Estados Unidos. Na outra ponta, se tem um cenário muito positivo de demanda por carne bovina no mundo, que vem crescendo ao mesmo tempo que a produção mundial está em queda. Isso também deve ajudar bastante o Brasil.
Quanto tempo deve durar esse cenário?
Temos uma janela longa promissora. Há o início da inversão do ciclo, com uma fase mais positiva em termos de preço. Ao mesmo tempo, como disse, a produção mundial está em queda. Abre um espaço bastante grande para cobrir. A demanda está suplantando a oferta e isso também auxilia na formação de preço. Se a carne é valorizada, todos os preços ao longo da cadeia são.
Como fatores externos, como a cota chinesa e a suspensão da União Europeia, impactam a atividade?
É interessante que, ao mesmo tempo que o mundo precisa de carne porque a produção está em queda, vemos um aumento de ações relacionadas a barreiras não tarifárias. O mundo precisa de carne e, ao mesmo tempo, o Brasil tem de lidar com barreiras. Talvez seja o ônus da nossa pecuária ser extremamente grande e eficiente. Acho que são momentos de ajuste. Já esgotamos a capacidade da cota chinesa. Agora, teríamos de arcar com uma tarifa proibitiva de 55%, (então,) muito pouco está sendo mandado para a China no momento. Como era o maior importador de carne bovina do Brasil, a indústria optou por fazer alguns ajustes. Reduz a produção, prioriza girar os estoques, tenta colocar um pouco mais valor na carne em outros mercados.
Há impacto no funcionamento de unidades que produzem para a China no RS?
As fábricas aqui vêm operando com fluxo menor, algumas, no caso de Bagé, hoje só com desossa, mas estamos com a operação rodando no Rio Grande do Sul.
Qual é a avaliação do consumo do mercado interno?
O mercado interno tem sido bastante resiliente. Temos visto a valorização da carne ao longo de praticamente todo o ano. Mais recentemente, com esse ajuste de produção que houve, até houve um ganho adicional de preço no mercado doméstico. Sim, as proteínas concorrentes estão baratas, o endividamento das famílias brasileiras está aumentando... Esse é um cenário que preocupa, mas, de novo, temos visto bastante resiliência e ganho de valor.




