
Perto de completar 84 anos, Francisco Turra esbanja o entusiasmo de um principiante quando o assunto é o agronegócio brasileiro. Nascido em Marau, no norte do Estado, foi na atuação junto ao setor que ele ultrapassou fronteiras e se tornou uma referência. Formado em Direito, atuou na vida pública como vice, prefeito e deputado estadual. No final da década de 90, presidiu a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), sendo depois alçado à ministro Agricultura. Também liderou por 12 anos a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), entidade da qual é hoje presidente do conselho consultivo. E está à frente do conselho administrativo da Associação dos Produtores de Biocombustíveis (Aprobio).
Uma longa trajetória que acaba de virar livro: O Embaixador do Agro, publicado pela Critério Editorial. Em entrevista ao programa Campo e Lavoura, da Rádio Gaúcha, ele falou sobre a obra e analisou temas da atualidade do agro. Abaixo, leia trechos da conversa.
O senhor imaginava que construiria uma carreira dentro do agro?
Sinceramente, não. Primeiro, porque, nascendo no interior, filho de pequenos agricultores, não havia possibilidade de sonhar com visitas a outros países. Para estudar, tive que entrar em um seminário. Depois é que me encaminhei para a vida pública, e aí fui começando a espiar um pouco o que havia de possibilidade nesse mundo.
E como foi parar no comando da Conab, em Brasília?
Fui convidado para ser presidente da Conab pelo presidente Fernando Henrique. A companhia estava em um momento de descrença, imagem ruim. Era um desafio imenso e o cumpri recebendo o prêmio da Conab como melhor empresa pública do Brasil dois anos depois. Quando quis sair para concorrer a deputado federal, o presidente Fernando Henrique me disse "vou precisar de ti, tá?" O jeitão dele, muito diplomático. No dia que concedeu a possibilidade de eu encerrar a minha carreira, recebi um telefonema do Delfim Neto, que estava com o Esperidião Amim, dizendo que o Fernando Henrique havia feito convite para ser o ministro da Agricultura.
Quais considera as conquistas mais importantes para o agro da sua gestão (de abril 98 a julho de 99)?
Primeiro, ter tornado o Brasil livre da febre aftosa na Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA). Dividimos o Brasil em circuitos agropecuários e fomos começando a liberar. Na época, exportávamos US$ 2 bilhões por ano, todas as proteínas juntas. Hoje, exportamos em torno de US$ 35 bilhões. Outro foi Modern Frota, que persiste até hoje, e o início da implantação do Pronaf.
Na presidência da ABPA, encarou uma grande crise advinda da Operação Carne Fraca, em 2017...
Vivi esse momento e sofri, porque abrimos muitos mercados, incluindo o chinês, praticamente 100% do asiático, africano e muitas aberturas de países importantes até hoje. Tínhamos clientes cativos nas aves, os Emirados Árabes e o mundo islâmico todo. Bovinos, apesar de não estar na ABPA, tínhamos vários mercados e também suínos.
Para que servem os antimicrobianos e qual o problema apontado pela UE que levou à suspensão das exportações do Brasil?
Quando você faz acordo, é fitossanitário. Se o país aceita determinada composição, ou um remédio mesmo, ou um tipo de ração, se ele só aceita isso, ou se ele impede, proíbe a exportação de carne com determinado tipo de ração, cabe a quem vende fazê-lo. Antimicrobianos são usados contra doenças e problemas também comuns para quem produz proteína animal. Se a União Europeia proibiu, cabe a gente comprovar que o produto que vai (para lá), efetivamente, não tem. E a falha do Brasil não foi usar ou não, foi comprovar que não usa. Quem tem de comprovar? A rigor, o governo. Te digo que esse banimento por parte da UE aconteceu porque o governo não deixou claro que tem capacidade de investigar, de fiscalizar e de coibir, se houver problema.
E só para a gente deixar claro, na verdade, a legislação brasileira permite o uso do antimicrobiano, certo?
Permite. Mas é uma questão de uma exigência, não sabemos por que fundamento (a cobrança para o não uso). É o caso da ractopamina também, promotores de crescimento, alguns (mercados) permitem usar, outros não, mas você tem de seguir o preceito.
Acha que retomamos rapidamente esse mercado?
O Brasil é um grande exportador, tem condições... e outra, naturalmente, supre uma carência que existe no país. Aves, como é de ciclo curto, em 40 dias você resolve. A partir de hoje, em 40 dias tenho aves para mandar e o griller, em 30 32 dias. Agora, bovino já é diferente o ciclo, suíno... mas quero crer que essas barreiras vão sendo superadas. O Brasil é um cumpridor rigoroso das regras, tem feito de tudo para se manter. Em 2005, a gente passou a ser o maio exportador de carne de frango do mundo. Estamos até hoje, distâncias cada vez maiores, os pedidos se avolumam cada vez mais também, porque o nosso frango é competitivo, a competitividade é tudo. O boi idem e suíno, não fora a grande produção chinesa, já somos o terceiro maior exportador e produtor do mundo.



