
A jornalista Carolina Pastl colabora com a colunista Gisele Loeblein, titular deste espaço.
O El Niño, que tem ganhado força neste segundo semestre, não deve afetar apenas a produção agrícola. Dependendo da intensidade e da duração do fenômeno, os efeitos podem chegar ao supermercado e pressionar os preços dos alimentos. O impacto, porém, será diferente entre as regiões e culturas.
No Brasil, o fenômeno costuma provocar mais chuva no Sul e tempo mais seco no centro-norte, justamente o cenário indicado pelas previsões para os próximos meses.
Para o pesquisador e professor do Insper Agro Global, Leandro Gilio, um dos principais problemas está na alteração das janelas de plantio e colheita. Um atraso na colheita da soja, por exemplo, pode empurrar para frente o plantio do milho safrinha e comprometer a produtividade da segunda safra.
É justamente o milho que mais preocupa Cesar Castro Alves, consultor de Agronegócio do Itaú BBA. Além do consumo direto, o cereal é matéria-prima para ração animal e etanol. Uma eventual redução da oferta, portanto, pode criar um efeito em cadeia, elevando custos para produtores de aves, suínos e outros segmentos de proteína animal.
No hortifrúti, o impacto poderá aparecer rapidamente. Frutas e hortaliças são mais sensíveis às condições de temperatura e umidade e podem sofrer tanto com excesso quanto com falta de chuva.
No Rio Grande do Sul, o excesso de precipitações merece atenção também na produção de leite e nas lavouras de trigo, segundo Castro Alves. Mas uma eventual queda da produção nacional não necessariamente se transforma, na mesma proporção, em alta dos preços dos panificados. Isso porque o Brasil tem forte dependência das importações, especialmente da Argentina, o que ajuda a amortecer parte de uma eventual quebra doméstica.
Já no Sudeste e no Centro-Oeste, o cenário de chuvas tende a ser mais favorável à pecuária, com pastagens em boas condições.
Outro produto no radar é o café, acrescenta o consultor do Itaú BBA. A chuva em períodos importantes para a florada pode ser positiva, desde que ocorra na intensidade e no momento adequados. Como ocorre com outras culturas, o problema está no excesso ou na combinação com temperaturas desfavoráveis.



