
A jornalista Carolina Pastl colabora com a colunista Gisele Loeblein, titular deste espaço.
Assim como já ocorre nos setores de ovos e carne de frango, a indústria da carne bovina também começou a reorganizar a produção. Frigoríficos do Rio Grande do Sul passaram a operar em dias alternados e, em alguns casos, concederam férias coletivas nas últimas semanas. A mudança reflete dois movimentos simultâneos: a escassez de boi gordo para abate e a necessidade de redirecionar as exportações diante do alcance da cota chinesa para a carne bovina brasileira.
No Estado, as unidades da Minerva Foods — as únicas habilitadas a exportar carne bovina para a China — vêm ajustando a operação. Em nota, a companhia informou que sua diversificação geográfica permite redistribuir a produção conforme a demanda dos mercados. A empresa possui plantas habilitadas para exportação no Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e Colômbia.
A desaceleração, porém, não está relacionada apenas ao mercado externo. Coordenador do Núcleo de Estudos em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e Cadeia Produtiva (Nespro), da UFRGS, o professor Júlio Barcellos afirma que o principal fator, neste momento, é a menor oferta de animais prontos para o abate:
— Estamos em um período de escassez de gado gordo. O inverno foi muito rigoroso, há poucas pastagens disponíveis e os confinamentos ainda não colocaram seus animais no mercado.
A redução da oferta já vinha pressionando os preços. Em junho, a carne bovina ficou cerca de 0,8% mais cara para o consumidor, reflexo da entressafra tanto no Rio Grande do Sul, quanto no Brasil Central.
Apesar das mudanças na operação dos frigoríficos, Barcellos avalia que os consumidores não devem sentir um impacto imediato provocado pela situação das exportações para a China:
— Houve redução no preço da arroba no Centro-Oeste, mas ainda existe muita especulação e poucas evidências na demanda externa.
A expectativa é de que agosto marque um período de maior estabilidade. Com a entrada gradual dos animais confinados no mercado, a pressão sobre a indústria tende a diminuir, o que pode limitar tanto a alta dos preços pagos ao pecuarista quanto dos valores cobrados do consumidor.
A partir de outubro, porém, o cenário pode voltar a mudar, projeta o professor:
— Devemos ter uma recuperação no preço do boi gordo, o que também pode resultar em novos reajustes da carne ao consumidor.
Cota chinesa segue no radar
Além da menor oferta de animais, a indústria acompanha com atenção a situação das exportações para a China. Segundo o setor, o limite de aproximadamente 1,1 milhão de toneladas de carne bovina brasileira estabelecido pelo governo chinês já foi alcançado ao considerar os embarques realizados, as cargas em trânsito e os contratos fechados.
Sem uma revisão desse teto por Pequim, novos embarques passam a enfrentar uma tarifa de cerca de 67%, percentual considerado inviável para a maior parte dos cortes exportados.
Enquanto aguarda uma definição das autoridades chinesas, a indústria busca ampliar as vendas para outros mercados, como Estados Unidos e Vietnã.



