
Em mais uma semana marcada por temporais e chuva forte no Rio Grande do Sul, a preocupação com a intensificação do El Niño cresce na cidade e no campo. O fenômeno já presente tem prognóstico de virar "super" mais à frente, a partir de setembro. Para falar sobre potenciais impactos e formas de o produtor minimizá-los, a coluna conversou com Alexandre Nascimento, meteorologista e sócio-diretor da Nottus. Veja trechos da entrevista, que vai ao ar na íntegra no Campo e Lavoura da Rádio Gaúcha, a partir das 6h de domingo (2).
Neste momento, o que os prognósticos apontam sobre o El Niño?
O fenômeno já está formado. Nos últimos relatórios do NOAA (sigla em inglês para National Oceanic and Atmospheric Administration) veio com uma anomalia na região central do (Oceano) Pacífico, de 1,4°C acima do normal. Neste momento, é tido como um fenômeno de moderada intensidade. Só que não podemos esquecer: estamos com um planeta extremamente mais quente do que o normal. O efeito combinado dessas duas coisas é o que mais assusta. Em julho, tivemos localidades do Rio Grande do Sul com mais de 300 milímetros de chuva acumulada. Representa mais ou menos o dobro do normal. Nada comparado a 2024. Naquela ocasião, em 10 dias, choveu 600, 700 milímetros. Porém, é uma chuva já capaz de provocar estragos, principalmente no campo.
Que tipo de estrago?
Para uma semente recém semeada, essa quantidade de chuva, aliás, nem precisa de tudo isso, pode arrastar essa semente, levar plantas que não estão ainda bem fincadas no solo embora e provocar diversos transtornos no campo, em máquinas, pessoas. É uma quantidade de chuva muito grande, e tem uma perspectiva de que isso vai ganhando intensidade. É um problema que, infelizmente, pode ser recorrente nos próximos meses.
O que representa a intensificação desse fenômeno? Quanto a mais de intensidade na chuva, por exemplo?
É difícil quantificar, o quanto que pode aumentar, mas eu diria o seguinte: se mantiver o que está acontecendo, com uma frente fria chegando a cada quatro, cinco dias, ao Rio Grande do Sul e ela, por exemplo, ficar bloqueada, como foi há 10 dias, essa é a pior situação. Porque ficam quatro, cinco, seis seis dias chovendo de forma ininterrupta. Por menor que seja o upgrade nessa condição para os próximos meses, já é o suficiente para trazer muitos transtornos. Além da chuva, tem ventos, formação de tornado, o que não faltam são problemas.
E o que o caracteriza como de grande intensidade?
O El Niño é apenas a cereja do bolo. A combinação com o planeta extremamente quente, acaba tornando os efeitos dele, infelizmente, bastante catastróficos, tanto na quantidade quanto na frequência de chuva, termina sendo o grande vilão. Repito, hoje estamos com moderada intensidade, daqui a dois, três meses a expectativa é de que seja classificado como muito forte. Hoje a anomalia é de cerca de 1°C, 1,5°C acima da normalidade. Quando chegar a 2,5ºC, será classificado como muito forte ou super El Niño. Independentemente disso, a combinação com um planeta que, na sua totalidade, está batendo recorde em julho na temperatura média dos oceanos, é o que mais preocupa, e o que continuará trazendo problemas, mesmo quando tivermos um ano de La Niña.
De que forma o produtor pode mitigar esses efeitos climáticos, já que não pode controlá-los?
É tratando do que fazer a partir de uma previsão. Até a mudança de cultura a ser cultivada, ou aproveitar as janelas de oportunidade para, por exemplo, fazer uma pulverização ou um plantio dentro de uma janela melhor. Lógico que terá momentos que, infelizmente, não tem como não falar: 2024 foi um ano muito marcante. Em um ano como 2024, infelizmente, nem tem o que fazer. Não tem o que mitigar. Mas vamos imaginar um ano, por exemplo, de La Niña, onde normalmente chove pouco ou aumentam as janelas secas. O produtor rural, com a sua consultoria meteorológica, tentando entender as melhores janelas, os momentos mais propícios para irrigação, para aplicação, ou até mesmo mudar a semente para aquela temporada, uma semente que tolere um pouco mais de sol, um pouco mais de calor... A engenharia genética das sementes está fantástica, então é tecnificar realmente, baseado nos prognósticos climáticos, para tentar minimizar o prejuízo. No final do dia, o que o produtor quer realmente é minimizar perda, maximizar lucro.




