
A 34ª Avaliação Nacional de Vinhos encerrou o período de inscrições e, em breve, dará início à etapa da coleta de amostras. Neste ano, ocorre em meio à celebração dos 50 anos da Associação Brasileira de Enologia (ABE), organizadora do evento. Ao fazer um grande raio X da safra, coloca na vitrine características singulares da produção do país, único no mundo a ter três tipos de vitivinicultura. A coluna conversou com Dirceu Scottá, coordenador da Associação de Enólogos da América sobre esse e outros temas. Confira trechos.
A Avaliação Nacional de Vinhos tem evidenciado o avanço da produção em novas áreas do Brasil?
Estamos diante de uma edição histórica, porque a Associação Brasileira de Enologia está completando 50 anos. A avaliação nacional vem crescendo a cada ano, e crescendo principalmente com essas novas regiões produtoras, principalmente do centro do país, região nordeste, enfim. E, de novo, vem demonstrar de que só seremos um país realmente vitivinícola, produtor de uvas e de vinhos, se tivermos produção em diferentes locais. Realidades e variedades diferentes, custos diferentes em cada região, mas resultados também diferentes. Vinhos com diferentes características, terroirs, que mostram a diversidade de um país continental como o Brasil. Então é lógico que a gente não pode esperar de que os vinhos, por exemplo, do Rio Grande do Sul, sejam iguais aos de Minas Gerais, São Paulo ou do Vale de São Francisco. Cada região tem sua particularidade. Dentro do Rio Grande do Sul, tem diferenças, então imagine no tamanho do Brasil. O Brasil é o único país no mundo com três formas distintas de viticultura: a tradicional, com colheita de uma safra por ano, aqui no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, a de dupla ´poda, no centro do país e a do Vale de São Francisco, onde tem colheita todos os dias do ano, devido a característica do clima e da irrigação. E que, consequentemente, darão origem a vinhos totalmente distintos, mas de qualidade a nível internacional.
Países da América Latina são apenas concorrentes ou podem se ajudar na divulgação dos vinho?
Sempre tratamos que a gente precisa cada vez mais desse intercâmbio, troca de experiências, sempre voltado ao lado técnico, de elaboração, de produção. A Associação Brasileira de Enologia, também junto com a Associação de Enólogos da América, promove e realiza o Congresso Latino-Americano de Viticultura e Enologia, concursos nacionais e internacionais, e sempre fazemos uma troca. Então, primeiro, tem essa parte técnica de envolvimento, de troca de experiências, de tecnologia, que é um dos objetivos principais. Mas também, se analisarmos, tem o outro lado, que é o de promoção. E aí, onde eu quero chegar? De que, ok, a gente pode ter um viés ou um ponto de vista de que Argentina, Chile ou todos os países podem ser concorrentes do Brasil em algum momento. Sim, podem. Mas por outro lado, também, o Brasil consome tão pouco vinho... não chegamos a três litros por pessoa por ano, né? Então temos um espaço muito grande, se analisarmos de que normalmente os países produtores de vinho têm um consumo que gira ao redor de 20 litros por pessoa a ano. Temos muito a crescer ainda, e vamos crescer a partir do momento que promovermos essas ações direcionadas à cultura. Porque estamos trazendo cultura, informação do que foi a vindima, a safra nesses diferentes países para o consumidor. E, além disso, divulgar que se fazem vinhos de diferentes formas, qualidades e terroir nesses locais. Estamos disseminando essa informação e essa cultura do vinho para o consumidor brasileiro também. Diria que só seremos um país realmente produtor e consumidor de vinho se aumentarmos o número de consumidores, o número de apreciadores da bebida.
Mas no Rio Grande do Sul, o consumo per capita é maior do que no Brasil?
No Rio Grande do Sul, fala-se de nove a 10 litros por pessoa/ano. Como região produtora, tem um maior consumo. E é o que eu falei: normalmente, os países produtores, que têm uma produção considerável, têm também um consumo maior. Por isso que a gente tem um espaço enorme de crescimento. Se chegarmos a 10 litros por pessoa por ano (no Brasil), é um volume considerável e que tem espaço para Brasil, Argentina, Chile, Peru, Bolívia, Uruguai.
A semana foi de Directo del Viñedo, evento que teve Bolívia e Peru como convidados. Como é a produção nesses países?
Resolvemos trazê-los para realmente mostrar um pouco desta realidade, que não tem tanto volume, mas (para mostrar) o que traz de diferente. Por exemplo, se destaca bastante no Peru a produção de uvas para o pisco. E na Bolívia, a produção de uvas para o singani, que é um produto local. Ambos são destilados, e nos dois países também se destaca a produção de uvas de mesa. Também tem regiões, tanto na Bolívia quanto no Peru, com excelentes produtos de vinhos, de variedades não tradicionais, não conhecidas aqui. Tem menor volume, mas também características e vinhos muito interessantes, e uma realidade um pouco diferente do que temos mais ao sul da América Latina.



