
A jornalista Carolina Pastl colabora com a colunista Gisele Loeblein, titular deste espaço.
A audiência pública marcada para esta segunda-feira (6) no Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos será acompanhada com atenção pelo agronegócio brasileiro. O encontro integra a etapa de consulta pública sobre a proposta norte-americana de aplicar tarifas adicionais de 25% sobre produtos brasileiros, medida que poderá entrar em vigor no próximo dia 15.
A discussão ocorre dentro do rito da Seção 301 da legislação comercial dos Estados Unidos, mecanismo legal que permite ao governo americano investigar unilateralmente práticas comerciais de outros países consideradas "injustas", "irracionais" ou discriminatórias, e retaliar com tarifas ou sanções. Entre as alegações apresentadas pelos norte-americanos estão questões ligadas ao comércio digital, políticas de pagamento eletrônico, etanol, propriedade intelectual e até críticas relacionadas ao desmatamento ilegal.
Na audiência, empresários, entidades e representantes da sociedade civil poderão apresentar manifestações. Até o momento, ao menos 13 participantes já indicaram posicionamento favorável à taxação. Entre eles estão associações ligadas à produção de etanol, milho, pecuária bovina, açúcar e siderurgia dos Estados Unidos.
Do lado brasileiro, a representação do setor agropecuário será feita pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), que levará as preocupações do segmento e os argumentos em defesa dos produtos nacionais. Também participam representações da iniciativa privada brasileira.
Segundo o assessor de Relações Internacionais da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul), Renan Hein dos Santos, a expectativa do setor é reduzir os impactos ou mesmo reverter parte das medidas propostas:
— Nós seremos representados pela CNA, que participará da audiência. Temos expectativa de conseguir defender os nossos produtos e mostrar que se trata de uma política equivocada.
Embora o Brasil esteja no centro da discussão, a avaliação da Farsul é de que, proporcionalmente, o Rio Grande do Sul possui uma exposição maior que a média nacional em alguns segmentos exportadores. Se considerados apenas os produtos do agro exportados, 74,9% estão na lista a ter a sobretaxa e 25,1% ficam de fora. No Brasil, 36,8% dos embarques do agro terão a taxa. E 63,2%, não.
Na relação dos itens mais afetados do agro no RS estão fumo não manufaturado, madeira serrada, calçados de couro e sebo bovino. No Brasil, sebo bovino, madeira perfilada, madeira compensada ou contraplacada e madeira serrada.
Ainda assim, parte dos produtos estratégicos brasileiros acabou entrando em listas de exceção elaboradas pelos próprios norte-americanos. Entre os itens poupados estão café, suco de laranja e carne bovina.
A inclusão dessas exceções não ocorreu por acaso, lembra Santos:
— No primeiro tarifaço, eles sentiram na inflação o quanto esse tipo de medida é equivocado para o mercado americano. O produto fica mais caro para o consumidor.
Os Estados Unidos também enfrentaram dificuldades para substituir fornecedores brasileiros em determinados segmentos. Alguns produtos dependem do volume exportado pelo Brasil, algo que outros países não conseguem suprir rapidamente.


