
Um dos setores mais afetados pelas novas tarifas dos Estados Unidos, a indústria de reciclagem animal mensura impactos e busca alternativas diante do cenário. O tempo transcorrido entre o primeiro tarifaço anunciado (de 50%, no ano passado) e essa nova fase foi usado para ampliar mercados, em uma tarefa que tem ações não imediatas. Por outro lado, aposta na inclusão do sebo bovino na lista de exceções americana. Confira abaixo trechos da entrevista com Decio Coutinho, presidente-executivo da Associação Brasileira de Reciclagem Animal (ABRA).
Qual o impacto das novas tarifas diante da relevância dos EUA para as exportações do setor?
Realmente é um mercado extremamente importante, significativo em termos de quantidade e de cifras para o setor. É um balizador do mercado interno e externo de farinhas e gorduras de origem animal. No ano passado, exportamos para os Estados Unidos, 424 mil toneladas de produtos da reciclagem animal, incluindo farinhas e gorduras de origem animal. Quase 92% disso foi de sebo bovino. E a exportação desse sebo bovino corresponde a 42% do total de embarques globais do setor de reciclagem animal.
É um percentual realmente elevado...
Exatamente. E com significado em termos de receita muito grande, porque é um mercado que paga um valor justo para o produto. Agregado a isso, você tem uma logística estabelecida com os Estados Unidos muito fácil e muito dinâmica. Não fica preso a poucas empresas de logística para te atender. Para o setor, é vital. Então, é um prejuízo muito grande que isso trará ao setor.
É possível buscar outros clientes, redirecionar mercados?
Quando tivemos o primeiro tarifaço, fomos atrás de mercado. Passei 32 dias na Ásia e, com a equipe do Ministério da Agricultura e da Apex-Brasil, abrimos Japão, Malásia, Singapura, Filipinas, com muita tranquilidade, porque são países que estão demandando, mais aí caímos no problema da logística. Então, esse processo vai caminhar lentamente até a gente conseguir chegar a tornar esse fluxo um fluxo constante. Não é uma coisa que não se possa fazer, mas não é de uma resposta automática.
O senhor vê possibilidade de reverter essa medida?
Acho muito difícil. E nos contatos que a gente tem com a equipe de governo eles dizem que é muito difícil de você acabar, suspender. As esperanças que temos é incluir novos produtos na lista de exceções.
Qual o papel da indústria de reciclagem animal?
São indústrias que faz o recolhimento do resíduo do abate de animais em frigoríficos e matadouros e tem o comércio de carne. Para ter ideia do tamanho disso, de um bovino vivo, em torno de 38% a 40% é resíduo, aquilo que não vai para a nossa mesa, que não vai direto para a alimentação humana. Então, vísceras, plumas, casco, uma série de partes dos animais, do bovino é 38%, de uma ave 28%, do suíno 20% e de um peixe 45% é resíduo. Então, nós estamos falando de um recolhimento de 14 milhões de toneladas de resíduo por ano. Isso corresponde a um terço de toda a capacidade de aterro sanitário do Brasil. Se não fizéssemos esse recolhimento, a cada três anos só com o nosso produto esgotava a capacidade dos aterros sanitários do Brasil. Então, ambientalmente, uma coisa muito significativa e mais, nós somos sustentabilidade na aveia, porque nós recolhemos lixo e transformamos em alimento.






