
O Rio Grande do Sul recebe nesta semana uma missão empresarial e tecnológica dos Países Baixos voltada à agricultura de precisão e à adaptação às mudanças climáticas. A iniciativa reúne empresas e universidades holandesas especializadas em agricultura digital, inteligência artificial, geotecnologias e saúde do solo. Com agendas em Porto Alegre, Não-Me-Toque e Passo Fundo, a missão busca fortalecer parcerias com instituições e empresas brasileiras para desenvolver soluções que tornem a produção agrícola mais eficiente e sustentável. Em entrevista à coluna, a conselheira para Agricultura, Pesca, Segurança Alimentar e Natureza da Embaixada do Reino dos Países Baixos no Brasil, Inge Horstmeier, fala sobre as oportunidades de cooperação entre os dois países. Confira trechos.
O que o Brasil pode aprender com a Holanda e o que a Holanda pode aprender com o Brasil?
Temos muito o que trocar. Venho de um país pequeno, com agricultura e uso de terra muito eficientes, que também poderia ser replicado aqui. Já nós poderíamos entender melhor aqui é o uso da terra, como o plantio direto, como produzir mais com menos. Para nós é muito interessante.
A Holanda é, hoje, um dos grandes exportadores de alimentos no mundo, apesar de ser um país, em tamanho, pequeno. Como conquistou esse destaque?
Estamos produzindo muito eficientemente. Temos as estufas, com as quais podemos criar um ambiente onde a tomate, a horticultura floresce, porque o ambiente é controlado. Mas tem outra coisa. Somos também um país de processamento. Então, por exemplo, a soja que vem do Brasil é processada para alimentar os animais.
Qual é o papel da pesquisa nessa transformação?
É fundamental. Sem inovação, sem pesquisa, o país ou a agricultura nunca se desenvolveria mais. Para nós, essa proximidade das universidades às empresas e aos produtores é muito importante. Criamos o que nós chamamos de Dutch Diamond, que é uma cooperação entre o governo, as empresas, a ciência e a sociedade civil. Cremos que só juntos podemos chegar mais longe.
Que papel a pesquisa ocupa em tempos de mudanças climáticas?
Sem dados, sem saber o que realmente acontece no solo, no ar, não podemos tomar decisões informadas. A ciência ajuda a tomar decisões informadas. Nesse sentido, as diferenças locais se acentuam. A ciência não elimina as mudanças climáticas, mas ajuda a lidar com elas. Há trabalhos como o de automação dentro de estufas. Estufas autônomas que têm a regulagem feita de forma remota.
Custa caro ser tecnológico e eficiente no campo. Qual é o papel do Estado nessa equação?
Temos soluções que não são tão facilmente aceitas. É importante tomar decisões informadas. Uma tecnologia nem sempre, ou em 100% dos casos, é custosa. E ajuda em muitos desafios no campo, no solo, nas pragas das plantas, na alimentação animal.
Quando se fala em produção na Europa, se fala muito em subsídios. Como é na Holanda?
Na parte tecnológica, não temos tanto.
Estamos em um momento de validação do acordo Mercosul-União Europeia, que tem despertado oportunidades e desafios dos dois lados. Como conduzir esse processo?
Para as empresas europeias, tem muitas oportunidades para ajudar a modernizar a produção aqui. Com tecnologia, máquinas, sementes. O lado brasileiro, o lado do Mercosul, seria ampliar a produção de uma maneira sustentável, porque todo mundo está alimentado com alimentos bons.
Qual é o objetivo dessa missão holandesa? É tudo isso. Temos aqui empresas, por exemplo, que querem saber do Brasil. O Brasil é conhecido e desconhecido ao mesmo tempo. Uma das empresas que integram a missão tinha identificado uma empresa interessante em Porto Alegre, e para nós, às vezes, é difícil conseguir uma reunião. A nossa esperança é que irão trocar experiências e, daí, talvez surja uma conexão comercial. É um ponto de partida, então, para se conhecer mais.
Desenvolver pesquisas em conjunto também?
Também é uma uma possibilidade porque aqui estamos com duas universidades. Pesquisar as mudanças climáticas, a resiliência agrícola, são assuntos importantes para os Países Baixos e para o Brasil.


