O anúncio do pacote de condições de crédito rural para a safra 2026/2027 está longe de ser um alívio à preocupação com o passivo acumulado pelos produtores gaúchos. Pelo contrário, o prejuízo acumulado após sucessivos problemas climáticos é a grande pedra no caminho, inclusive para o acesso aos novos financiamentos.
O aceno feito pelo ministro da Fazenda, Dario Durigan, de uma nova proposta a ser apresentada pelo governo para tratar do endividamento, tampouco traz um alívio. Em entrevista ao programa Gaúcha Atualidade, nesta quarta-feira (1), Domingos Velho Lopes, presidente da Federação da Agricultura do Estado (Farsul), explicou o motivo:
— Não acreditamos que seja efetiva, porque já tiveram a oportunidade de gerar uma medida provisória ou outra forma efetiva de buscar solução. E não veio porque todas as proposições ficaram muito longe (da necessidade) e, ficando muito longe, não soluciona o caos que vai ser gerado na agricultura e na economia gaúcha como um todo.
O dirigente trouxe dados do tamanho do problema. O Rio Grande do Sul tem, entre os Estados brasileiros, o maior valor de saldo problemático da carteira rural (contratos com inadimplência, prorrogados ou alongados): R$ 39,9 bilhões. Para se ter uma ideia, o Mato Grosso, na segunda posição, soma R$ 21,8 bilhões, e Goiás, R$ 19,8 bi, considerando apenas as três maiores cifras.
— A apreensão é total e com reflexo já na lavoura de inverno, com uma redução da lavoura de trigo na ordem de 30%. O que aconteceu no Rio Grande do Sul, com as quatro estiagens gigantescas desde 2020 e as duas enchentes, nunca aconteceu em nenhum lugar do o mundo — apontou Lopes, sobre a condição singular enfrentada pelo cenário gaúcho.
O pacote em si
Sobre o Plano Safra voltado à produção familiar, Eugênio Zanetti, presidente da presidente da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado (Fetag-RS), especialmente nas linhas do Pronaf, pontuou:
— Não dá para dizer que foi ruim.
A avaliação leva em consideração o incremento no volume de recursos, que passaram de R$ 53 bilhões para R$ 85 bilhões nos últimos quatro anos. Ele destacou também a redução da taxa de juro, em especial nas linhas de produtos da cesta básica de alimentos.
— Dentro do que foi negociado, dá para dizer que fomos contemplados. Agora, ficou nesse anúncio um gosto amargo de medidas estruturantes. Não adianta ter o melhor Plano Safra, se não resolver o endividamento. Será inacessível para milhares de agricultores — reforçou Zanetti.


