
A jornalista Carolina Pastl colabora com a colunista Gisele Loeblein, titular deste espaço.
A produção de grãos no inverno deve cair ao menor nível em cinco anos no Rio Grande do Sul. É o que mostra o primeiro levantamento da safra divulgado pela Emater nesta segunda-feira (22).
Depois de alcançar quase 2 milhões de hectares em 2023, a área cultivada na estação mais fria do ano deve recuar para 1,57 milhão em 2026. A redução é de 10,7% em relação à safra passada e de 21,5% frente a três anos atrás.
O dado chega justamente quando o Rio Grande do Sul tenta consolidar o conceito do Programa Duas Safras — a aposta lançada em 2022 para transformar o inverno em segunda fonte de renda para o produtor gaúcho. A iniciativa, liderada pela Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul), Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar-RS), Embrapa, Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Federação das Cooperativas Agropecuárias do Estado do Rio Grande do Sul (FecoAgro/RS), Federação das Associações de Arrozeiros do Rio Grande do Sul (Federarroz) e Associação Gaúcha de Avicultura (Asgav), nasceu com a promessa de elevar em 40% a produção agropecuária no Estado.
O início foi animador. Entre 2021 e 2023, a área de inverno cresceu de 1,64 milhão para 1,99 milhão de hectares. Desde então, o ciclo virou.
Para o diretor técnico da Emater/RS-Ascar, Mateus Rocha, há uma questão financeira por trás:
— O produtor precisa estar capitalizado para conseguir fazer os investimentos necessários. O acesso ao financiamento e a situação financeira dos produtores são os fatores que mais têm limitado a expansão das lavouras de inverno.
Principal cultura da estação, o trigo segue como o principal responsável pela retração e deve cair 30% neste ano, alcançando 814,2 mil hectares. Enquanto isso, a produção está estimada em 2,2 milhões de toneladas, redução de 36,39% na mesma comparação.
Na outra ponta, a canola avança com força. Deve chegar a 353,4 mil hectares em 2026, mais que o dobro de 2025, com produção estimada em 571,9 mil toneladas. Ainda assim, não preenche todo o espaço deixado pelo trigo.
Na avaliação do assessor técnico da Emater, Célio Alberto Colle, é a questão financeira, mais uma vez, que move o produtor a plantar canola:
— O principal fator foi o preço. A cultura teve remuneração interessante e isso estimulou a expansão.
O avanço também se apoia no mercado, com a demanda por óleo vegetal e a perspectiva de expansão dos biocombustíveis no Estado. Já o trigo segue pressionado por um cenário internacional mais ofertado, cotações mais fracas e questões climáticas.
— Existe tendência de aumento das chuvas com o El Niño — lembrou o agrometeorologista da Secretaria Estadual da Agricultura, Flávio Varone, citando o risco de surgimento de doenças, perda de qualidade dos grãos e dificuldades na colheita.
Superintendente do Senar-RS, Eduardo Condorelli explicou à coluna que o Duas Safras tem "uma visão estruturante, e não apenas conjuntural da atividade agropecuária":
— O trigo tem enfrentado dificuldades no mercado. Por isso, temos abordado na edição deste ano do Programa sobre ganhar mais e parar de perder. Investir em irrigação no verão para se proteger da estiagem e, no inverno, em canola ou na intensificação da pecuária de corte são algumas das nossas recomendações.
Evolução da safra de inverno no RS
- Safra 2021: 1,6 milhão de hectares e 4,5 milhões de toneladas
- Safra 2022: 1,89 milhão de hectares e 5,7 milhões de toneladas
- Safra 2023: 1,98 milhão de hectares e 6,4 milhões de toneladas
- Safra 2024: 1,8 milhão de hectares e 4,88 milhões de toneladas
- Safra 2025: 1,7 milhão de hectares e 4,79 milhões de toneladas
- Safra 2026*: 1,5 milhão de hectares e 3,7 milhões de toneladas
*Estimativa da Emater/RS-Ascar




