
Menos de um mês depois da entrada em vigor do acordo União Europeia (UE) e Mercosul, o anúncio de restrição a importações de carnes e produtos de origem animal do Brasil foi recebido como um duro golpe, embora tratem-se de esferas diferentes. O acordo é comercial, a restrição, sanitária. O bloco europeu é um dos principais destinos dos itens barrados sob a premissa de descumprimento das regras do uso de antimicrobianos na pecuária.
Ficam excluídas as carnes bovina, de frango, de cavalo, tripas, peixe e mel. Na verdade, a UE publicou a relação dos países que estão aptos a vender por cumprirem as regras, e o nome do Brasil não aparece.
— É uma baita complicação, porque os outros parceiros do Mercosul não saíram da lista. A justificativa é sanitária, mas o efeito é comercial. O Brasil não deve responder dizendo que é só protecionismo: precisa mostrar que já tem técnicas de controle — destaca Renan Hein dos Santos, assessor de Relações Internacionais da Federação da Agricultura do RS (Farsul).
A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) publicou, nesta terça-feira (12), uma nota em que afirma que o Brasil cumpre integralmente todas as exigências da União Europeia, inclusive as relacionadas aos regulamentos sobre o uso de antimicrobianos. A entidade informou ainda que o Ministério da Agricultura, com apoio técnico do setor produtivo, apresentará às autoridades sanitárias europeias as comprovações de conformidade do sistema brasileiro.
Presidente da Associação Gaúcha de Avicultura (Asgav), José Eduardo dos Santos classifica a questão como "um balde de água fria". O Estado tem na UE o segundo principal destino de carne de frango nesse começo de 2026. E vinha apostando na recuperação dos embarques de forma geral depois do caso de gripe aviária em granja comercial gaúcha no ano passado.
— Saiu uma diretiva do serviço fitossanitário europeu. Não está dizendo que o Brasil está usando antimicrobianos, apenas que não tem capacidade de comprovar que não usa — explica o coordenador do Núcleo de Estudos em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e Cadeia Produtiva (Nespro) da UFRGS, Júlio Barcellos.
Mais do que volume, é o valor da carne embarcada para a UE que faz a diferença. No caso da proteína bovina, 5% do total exportado em 2025 pelo Brasil foi para o bloco, mas esse percentual representa a carne mais valorizada embarcada pelo país, em torno de US$ 9,5 mil a tonelada. Entre os cortes, alcatra, contrafilé, filé.
Além disso, vale destacar, conforme lembrou a ABPA, que as exportações não estão suspensas. A lista de países em não conformidade, que ainda pende de publicação oficial, somente entrará em vigor a partir de 3 de setembro.




