
Depois de um segundo semestre de baixa em 2025, do campo à mesa, o preço do leite traz nessa primeira metade do ano um sabor de reação. Levantamento do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP, mostra que o preço ao produtor subiu 10,5% em março, na comparação com fevereiro, fazendo a Média Brasil chegar a R$ 2,3924 o litro. Também é de alta o cenário no acumulado do primeiro trimestre deste ano. Ainda assim, o valor de março, por exemplo, é 18,7% menor do que o de igual mês de 2025.
Nas prateleiras de supermercados, já existem itens dento do universo dos lácteos com aumento, como mostram dados do IPCA, considerada a inflação oficial, de março. O leite longa vida, o tradicional UHT, teve elevação em março de 4,46%. Em abril, saltou 16,33%.
Analista de Inteligência de Mercado da StoneX, Juliana Torres explica que os preços de derivados, especialmente queijos, e do leite UHT tiveram uma alta, ganhando "tração no primeiro trimestre, com aumento forte da indústria para o varejo".
— O que estamos vendo agora é varjeo começando a repassar preços aos consumidor.
Para entender o cenário atual é preciso voltar um pouco no tempo. O segundo semestre de 2025 foi de quedas acentuadas no preço, que também chegaram ao consumidor. Em dezembro, atingiu o valor mais baixo do ano passado. Uma situação que refletia um aumento na oferta não acompanhado, na mesma proporção, no consumo.
Os valores menores acabam por estimular a demanda do consumidor e esse movimento, junto com a tentativa da indústria de alavancar preços ajudou a trazer uma virada, fazendo os valores do leite escorrer no primeiro trimestre de 2026, a partir de uma combinação de fatores:
— Uma parte é a retração de oferta. Do outro lado, os níves de preço tanto no varejo quanto na indústria foram um fator que aceleraram a demanda e, de alguma forma, observamos movimentos sazonais — explica a analista.
Ela estima que o consumidor ainda deve sentir alta nos próximos meses, efeito em cascata da valorização do começo deste ano. O leite UHT tende a estabilizar, porque já teve repasses mais fortes, mas itens como queijo e creme de leite ainda não, motivo pelas quais devem seguir a curva de reajuste.
— Tem um delay em relação ao (preço) ao produtor. Ele vinha enfrentando a queda de preços no segundo semestre. E começou a subir agora, acompanhando essa alta no primeiro trimestre. Até porque, no Brasil em geral, estamos em período de entressafra — completa a analista da StoneX.
Vale lembrar, ainda, que o produtor recebe pelo produto entregue no mês anterior, o que também ajuda a explicar esse descompasso.
Entenda
- Dados do Cepea/Esalq/USP mostram que a média Brasil do litro de leite teve alta de 10,5% em março (sobre fevereiro) e de 17,6% no acumulado do primeiro trimestre. Ainda asssim, segue abaixo dos valores registrados em igual período de 2025.
- O valor de referência do Conseleite no RS connsolidado para o mês de março foi de R$ 2,3721, terceira alta consecutiva no ano, mas ainda inferior aos R$ 2,5164 de igual mês do ano passado.
- A variação mensal do IPCA mostra que o leite UHT, por xemplo, começou o ano com queda de 7,93%. Em fevereiro, subiu 0,46% e em março, 4,46%. Já em abril, expandiu 16,33%.
Fontes: Cepea, Conseleite e IBGE

