
Um mosaico, com uma vitivinicultura que se desenvolve de forma não linear ou homogênea. Esse é um dos diagnósticos trazidos pela levantamento Brasil Vitivinícola: Panorama Estratégico e Mapeamento da Cadeia de Valor da Vitivinicultura Brasileira. Feito "sob encomenda" pelo Consevitis, o estudo foi conduzido ao longo de 15 meses, período em que foram ouvidas mais de 40 fontes institucionais, setoriais, observados 14 relatórios regionais e temáticos, percorridas mais de 150 horas de campo, com escuta técnica, validação, além de entrevistas, visitas técnicas e análise territorial em mais de 10 espaços. Coordenador da pesquisa, o professor e consultor em marketing estratégico Paulo Henrique Leme, doutor em Administração pela Universidade Federal de Lavras (UFLA), conversou com a coluna sobre o tema. Leia trechos.
Qual o panorama do vinho brasileiro revelado pela pesquisa?
O vinho, os produtos da vitivinicultura brasileira, têm ganhado espaço nas gôndolas, com uma grande diversidade. Seja da vitivinicultura tradicional, mas também da de inverno, que usa a dupla poda, para inverter o ciclo e produzir vinhos de mais qualidade. Também a vitivinicultura tropical do Nordeste, com a sua pujança de produtividade, apresentando vinhos de qualidade, a importância dos sucos de uva, da uva in natura, dos vinhos de mesa. Conseguimos mostrar esse mosaico de diversidade e algumas necessidades que as regiões têm em relação ao fortalecimento do território, da imagem e da aproximação do consumidor para agregar valor.
Os novos polos de produção ainda têm diferenças estruturais em relação às regiões tradicionais?
Sim, dependendo da região há sistemas produtivos diferentes, com evolução do modelo produtivo também. O que significa? A super importância da agricultura, da produção de uva, do cooperativismo nas regiões no Rio Grande do Sul, especialmente na Serra. Se percebe a força do cooperativismo, a de ter a união em prol de qualidade, difusão de tecnologias. Em compensação, em algumas regiões, vimos produtores ou vinícolas atuando de forma isolada, sem entender que para o circuito enoturístico, fazer sentido, tem de ter mais de uma vinícola. Esse trabalho em conjunto, para poder fazer a agregação de valor ocorrer dentro de um território, dentro de uma região. Mesmo, por exemplo, para o vinho de mesa, que tem grande penetração nos lares brasileiros. Para poder crescer, também precisa de uma coordenação entre indústria e produtores, porque aí se fala de competitividade em preço, entrega e distribuição. A dinâmica mercadológica também da vindima, da cultura, foi mapeada.
O enoturismo é consequência ou mola propulsora do desenvolvimento do setor?
As duas coisas ao mesmo tempo, depende muito da região. O enoturismo transforma o vinho em experiência, e estamos no mundo do consumo da experiência. Queremos viver o momento do consumo, não basta comprar uma pizza, tenho de postar que comprei e a experiência que estou vivendo naquele momento de consumo. O vinho também é assim: sempre foi algo ligado à experiência, mas quando você vive o marketing digital, um mundo que consome informações muito rápidas, precisa transformar o produto em experiência. Os locais onde você consegue ver a transformação do vinho em experiência, percebe que o enoturismo é a chave. Pode vir depois da qualidade, da premiação, de conseguir um bom posicionamento no mercado, mas também vem antes de alguma forma, quando tem as rotas turísticas sendo incentivadas por algum órgão institucional ou mesmo produtores. Tem os dois modelos: o modelo muito tradicional, do vinho de mesa da tradição, da cultura italiana, por exemplo, em várias regiões do Brasil, seja no Espírito Santo, São Paulo, no Rio Grande do Sul, Santa Catarina. Mas também o enoturismo de luxo, nas novas vinícolas nascendo na Chapada Diamantina, na Bahia, no Cerrado Mineiro, no interior de São Paulo, ou mesmo dentro do Gonçalves, no Vale dos Vinhedos.
E qual o resultado disso?
É muito importante entender como o enoturismo pode ser um fator-chave para a vitivinicultura brasileira conseguir se preparar, por exemplo, para uma possível invasão de produtos da Europa ou da própria América do Sul. Não que a gente já não enfrente essa concorrência de cabeça erguida hoje, mas é importante que nada substituirá o atendimento com a pessoa que te entende, com um brasileiro que está lá recebendo você, dando atenção, carinho. É muito importante, vamos valorizar o enoturismo como essa ferramenta de negócios mesmo.
A diversidade de modelos, tipos de produção do Brasil é uma vantagem que o Brasil pode e deve explorar comercialmente?
Isso foi possibilitado por tecnologias, aí entra a importância da pesquisa, tanto da Embrapa quanto da Epamig. Junto com universidades brasileiras, foram responsáveis por esse desenvolvimento das tecnologias para viabilizar a dupla poda nas regiões do Centro-Oeste, nas do Sudeste, também um pouquinho no Nordeste, Norte, e na vitivinicultura tropical no Vale do São Francisco. Estamos falando praticamente de duas safras e meia até três. Nossa diversidade é difícil de encontrar em qualquer outro país. E aí, vamos se comportar como um consumidor curioso, que gosta de provar diferentes vinhos, experiências. Imagina a quantidade de terroirs que estão escondidos pelo Brasil e podem ser viabilizados pela tecnologia tropical, pela tecnologia dos vinhos de inverno. Isso coloca o Brasil, de fato, nessa nova fronteira dos vinhos mundiais.





