
Depois de ver a água tomar propriedades, destruir lavouras e isolar comunidades rurais no Rio Grande do Sul, produtores começam a encarar uma pergunta que até pouco tempo parecia distante: o que fazer quando o desastre volta a acontecer? É nesse cenário que uma startup vem atuando com oficinas voltadas à preparação de lideranças do setor, levando protocolos de emergência para enfrentar enchentes, incêndios e outros eventos extremos que, segundo especialistas, devem se tornar cada vez mais frequentes. A coluna entrevistou Abner de Freitas, que é CEO desta startup, a Hopeful. Confira trechos.
Qual é o trabalho da Hopeful e como se conecta com a preparação de produtores para desastres?
Vamos imaginar uma situação em que estamos em casa, vemos uma fumaça muito forte e observamos que começou a pegar fogo. Imaginamos que o incêndio, o fogo, é a principal ameaça. É também, só que a fumaça reduzirá visibilidade, terá uma temperatura que queimará as vias aéreas. Para poder abandonar esse local, precisamos rastejar com o rosto mais próximo do chão. Isso que acabei de fazer, dar uma informação baseada em um protocolo, pode ser determinante para você sobreviver ou não a um desastre. O trabalho de educação em desastres da Hopeful é pegar o que existe de melhor em evidência científica e protocolo nacional ou internacional para que você saiba o que fazer antes, durante e depois do desastre. Costumo dizer que o problema não é o desastre, é não saber o que fazer neles.
Como são as oficinas (até o momento, duas, em Eldorado do Sul e Agudo)? Nosso trabalho de educação é antecipar os riscos e preparar. E isso, no contexto do campo, tem uma outra perspectiva. Em 2024, a Fapergs (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado) abriu um edital, e o José Reck, do Departamento de Diagnóstico e Pesquisa Agropecuária, submeteu um projeto chamado Uma Só Saúde na Agropecuária, Diagnóstico e Resiliência a Desastres no Contexto das Mudanças Climáticas no Rio Grande do Sul. Eles vêm realizando várias atividades de análise de solo e, no meu trabalho, fiquei responsável por essa dimensão que é uma série de oficinas que trabalharão com a liderança do campo. Na área urbana, a gente tem percepções e capacidades de acionamento diferente do campo.
Hoje já existem protocolos específicos para o campo? Se sim, qual a diferença em relação à cidade?
Esses protocolos existem há muito tempo, o problema é que nunca identificamos a necessidade ou achamos que desastre seja um tema que possa nos preocupar. A partir de 2023, a percepção das pessoas é de que o que ocorreu foi como um evento único, como aquele meteoro que cai e só vai ocorrer de novo daqui 50 mil anos. O problema, quando vou dar esses treinamentos, não tem sido trazer o protocolo, mas informar às pessoas que ocorrerão mais desastres. E não falo isso para gerar qualquer alarmismo. Em 2019, o Instituto de Política Estratégica da Austrália publicou um relatório dizendo que estamos entrando na era dos desastres. É um ciclo que pode ser de 10 anos, 20 anos... A gente não mudou a forma de lidar com essa situação. Nesses treinamentos, tenho tido até uma dificuldade emocional de dizer, sim, vai ocorrer de novo. O primeiro passo para a construção do protocolo é admitir que vai ocorrer.
E como lidar com isso?
O exercício é, teoricamente, simples, mas talvez seja essa a primeira parte dolorida. Se ocorrer de novo, na mesma intensidade ou maior, o que eu faço? Tu tens que responder a essa questão. Se voltar a inundar, o que eu faço? Quais são os recursos? Para onde ligo? Para onde me dirijo? Vou te dar um exemplo básico: já fizeram a mochila de emergência? Com uma cópia dos documentos, receituário médico, um conjunto de medicamentos, comida enlatada, água armazenada, lanterna, pilha, rádio? Um exercício que recomendo é dividir uma folha de papel na metade. Em uma, escreve o que viveu; na outra, o que precisa se isso ocorrer de novo.
O que pode ser feito diante desse prognóstico de El Niño forte?
Estamos achando que o problema é o El Niño do segundo semestre. Passaremos por ele como passamos em 2024, só que não nos reestruturamos como sociedade para os desastres que virão com frequência. Esse é o ponto. Normalmente levo uma apresentação nas minhas oficinas para mostrar que em 1990, 2000, as Nações Unidas juntaram todos os países e pediram para criarem uma cultura de prevenção. A minha pergunta é: o que aquela década nos deixou de legado? O problema hoje não é o El Niño do segundo semestre, é o que estamos estruturando de diferente para os próximos desastres que irão acontecer.
Como funcionam as oficinas?
Estamos realizando três oficinas para cada região. Uma foi a de Eldorado do Sul, a outra, de Agudo. A primeira estamos falando sobre riscos no campo e planejamento comunitário. A segunda, boas práticas de resiliência agrícola no campo. E a terceira, criar multiplicadores comunitários e protocolos de atuação. Nessa, a ideia é preparar quem participou da oficina para poder replicar o conhecimento.

