
A jornalista Carolina Pastl colabora com a colunista Gisele Loeblein, titular deste espaço.
Em um momento em que o agro enfrenta dificuldade para encontrar mão de obra qualificada e acelerar a adaptação às novas tecnologias no campo, o Senar-RS inaugura em Hulha Negra, na Campanha, um centro de formação voltado à mecanização e à agricultura de precisão. Com capacidade para capacitar cerca de 8 mil pessoas por ano e apoio da AGCO, a estrutura quer se tornar referência nacional em ensino técnico rural. A coluna conversou com o superintendente do Senar-RS, Eduardo Condorelli, que falou sobre os desafios da qualificação no agro gaúcho e o impacto do novo centro para o setor. Confira trechos.
Quais são hoje os maiores gargalos de capacitação no campo?
Temos visto já há muito tempo a dificuldade geral do país em encontrar gente para fazer o trabalho em vários setores da economia brasileira. No agro não é diferente. Diferentemente de como vivíamos no tempo dos nossos pais e avós, onde o agro era feito com muita força e coragem, o agro do século 21 exige muita inteligência. E, obviamente, esse processo faz com que a educação se torne mais complexa. No Senar, fazemos um trabalho no Brasil inteiro há mais de 30 anos. Já capacitamos milhões de pessoas. Mas vimos que o avanço da tecnologia é muito grande. E isso faz com que a complexidade desse processo educacional aumente e exija estruturas mais preparadas para o processo.
O que vai ter neste novo centro?
A primeira grande característica deste centro é ter um tamanho que permite abraçar, em um único lugar, tudo que há de tecnologia disponível. Além disso, temos infraestrutura de salas de aula e de laboratórios que permite um aprendizado teórico em um nível mais elevado, adequado ao que a máquina que está sendo objeto da aula está exigindo. Mantemos os nossos cursos iniciais na parceria com os sindicatos rurais, mas tratamos Hulha Negra como uma pós-graduação para aqueles que têm o desafio de operar, além das máquinas básicas, as máquinas mais avançadas.
Sairão desse novo centro, então, profissionais de que áreas?
Temos 17 cursos desenhados para Hulha Negra. Estamos começando com seis áreas. São operadores de tratores agrícolas; operadores de semeadoras com taxa variável e a vácuo; operadores de colheitadeira com piloto automático, mapa de colheita e tecnologias axiais; operadores de pulverizador autopropelido; e operadores de drones agrícolas, com a finalidade da aplicação de produtos fitossanitários e também a operação e manutenção de pivô central.
E por que Hulha Negra?
Uma série de indicadores foram utilizados para que escolher o local. Trazer desenvolvimento para uma determinada região foi um deles. A questão da disponibilidade de área com acesso asfáltico direto, para que pudéssemos estar na beira do asfalto, foi outro. A proximidade com cidades com número expressivo de população também. Estar em uma fronteira agrícola, em uma região que possa demandar mao de obra, influenciou. Tínhamos duas ou três localidades que poderíamos escolher e acabamos optando por Hulha Negra por entender que, aqui, esse centro terá uma viabilidade de tempo. Certamente é uma região que vai crescer muito ainda na agricultura do Rio Grande do Sul.
Existe hoje uma defasagem entre a tecnologia disponível nas máquinas e a qualificação da mão de obra no campo?
Assim como o telefone celular evolui em uma velocidade absurda, e não damos conta de extrair dessa máquina tudo que ela produz, na agricultura, acontece a mesma coisa. O serviço se torna cada vez mais de inteligência e menos de força bruta, evoluindo em uma velocidade gigantesca e que, por óbvio, precisa de pessoas dedicadas. O campo, hoje, é um lugar de bons salários, de qualidade de vida. E isto passa pelo fato das pessoas que estão no campo precisarem adquirir conhecimentos que não eram necessários até 25 anos atrás.
Vocês percebem aumento da procura por cursos ligados à agricultura de precisão e à mecanização?
Com certeza. A operação de máquinas se tornou realmente um problema no Rio Grande do Sul e no Brasil. As máquinas hoje valem e entregam cada vez mais. Então, precisam de uma pessoa capaz de extrair o mínimo de resultado. Temos uma marca que embarca, em uma colheitadeira, um sistema de autocontrole. Essa máquina deve custar R$ 2,5 milhões, e esse equipamento, R$ 200 mil. Segundo a marca, menos de 20% das pessoas que compram ligam o sistema. Não compreendem a funcionalidade. Esse centro tem justamente esta preocupação: que as pessoas saibam usar o básico dessas máquinas para que possam responder ao valor que foi investido.
Pois é, a falta de mão de obra qualificada também limita ganhos de produtividade.
Com certeza. Limita ganho de produtividade para o produtor, que fez um investimento caro e apostou que a máquina traria um resultado, e limita o ganho de produtividade do trabalhador que está atrás do volante. Essa pessoa, sendo capaz, faz com que a máquina dê o melhor resultado ao produtor. E o produtor, tendo possibilidade, poderá remunerar melhor também essa pessoa. Se deu para entender o que estamos propondo aqui em Hulha Negra, vamos gerar um ciclo virtuoso para uma nova parte da sociedade gaúcha.




