
Foi com surpresa e preocupação que o Brasil recebeu a informação de que, se nada mudar, a partir de 3 de setembro, a exportação de carnes e produtos de origem animal para a União Europeia fica barrada. É por isso que o governo brasileiro tem pressa: nesta quarta-feira (13), o chefe da delegação do Brasil junto ao bloco se reúne com autoridades sanitárias. O objetivo é ter explicações do que motivou a decisão.
O argumento central apontado pelos europeus é o de que o Brasil não tem conseguido comprovar o cumprimento das regras relacionadas ao uso de antimicrobianos.
— Saiu uma diretiva do serviço fitossanitário europeu. Não está dizendo que o Brasil está usando antimicrobianos, apenas que não tem capacidade de comprovar que não usa — explica o coordenador do Núcleo de Estudos em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e Cadeia Produtiva (Nespro) da UFRGS, Júlio Barcellos.
Talvez venha daí a principal razão para o espanto com a medida. Em 24 de abril deste ano, a Secretaria de Defesa Agropecuária do Ministério da Agricultura publicou uma portaria que proíbe aditivos melhoradores de desempenho contendo cinco tipos de antimicrobianos.
— O ponto central é que já há essa portaria que corresponde à demanda deles (UE), o que temos de conseguir fazer agora é mostrar tecnicamente as regras de controle, comprovar a rastreabilidade, o uso correto de medicamentos — avalia Renan Hein dos Santos, assessor de Relações Internacionais da Federação da Agricultura do Estado (Farsul).
Carne bovina, de frango, tripas, peixe e mel estão na relação dos que ficam com a exportação barrada diante da não inclusão do Brasil na lista dos aptos. Em nota, o Ministério das Relações Exteriores reforçou que, neste momento, os embarques seguem normalmente.
A preocupação do setor, no entanto, existe dada a relevância do mercado para os embarques das proteínas.
— É uma baita complicação, porque os outros parceiros do Mercosul não saíram da lista. A justificativa é sanitária, mas o efeito é comercial. O Brasil não deve responder dizendo que é só protecionismo: precisa mostrar que já tem técnicas de controle — reforça o assessor de Relações internacionais da Farsul.
Mais do que volume, é o valor da carne embarcada para a UE que faz a diferença. No caso da proteína bovina, 5% do total exportado em 2025 pelo Brasil foi para o bloco, mas esse percentual representa a carne mais valorizada embarcada pelo país, em torno de US$ 9,5 mil a tonelada. Entre os cortes, alcatra, contrafilé, filé.
Presidente da Associação Gaúcha de Avicultura (Asgav), José Eduardo dos Santos classifica a questão como "um balde de água fria". O Estado teve, de na UE o segundo principal destino de carne de frango de janeiro a abril deste ano. E vinha apostando na recuperação dos embarques de forma geral depois do caso de gripe aviária em granja comercial gaúcha no ano passado.
— É uma situação que nos deixa em estado de alerta, porque temos do outro lado a crise no Oriente Médio, a remodelagem geopolítica. E a gente sabe que há uma pressão também no sentido de entrada muito volumosa de produtos avícolas. Tudo isso deixa o mercado delicado, apreensivo.




