
A confirmação de dois focos de febre aftosa na China traz um elemento novo à mesa de negociação com o país asiático em relação às exportações de carne bovina do Brasil. Desde o início do ano, está em vigor uma cota limite, de 1,1 mil toneladas, para a entrada da proteína brasileira sem uma sobretaxa de 55%, adicional aos 12% da tarifa habitual.
A medida de salvaguarda foi adotada com o argumento de proteger a produção local chinesa frente ao aumento expressivo das importações do produto, com diferentes países tendo volume estabelecidos. Agora, a presença da aftosa no território do país asiático pode fazer com que as cotas venham a ser revisadas.
— São focos localizados em duas regiões, mas podem se espalhar e causar grandes prejuízos para a produção, que está em uma fase de aumento de produção e produtividade. Vai depender do sistema de controle que eles têm para restringir a doença — avalia Júlio Barcellos, coordenador do Núcleo de Estudos em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e Cadeia Produtiva (Nespro) da UFRGS.
O professor entende que ainda é cedo para avaliar que a situação envolvendo os bovinos de corte possa produzir efeitos semelhantes ao que a peste suína africana produziu na suinocultura. A doença que avançou no ano de 2018 sobre o rebanho da China, dizimando entre 40% e 50% do total de animais. O quadro forçou o país asiático a ampliar as compras externas, dando um impulso considerável às vendas da proteína brasileira.
— Mas os mercados já começam a se movimentar, pois se houver maiores prejuízos, eles (chineses) terão de rever a situação dos fornecedores e deixar de impor cotas, em especial a principal delas, que é o caso do Brasil, pois seria uma resposta defensável para a pecuária chinesa, de que é necessário para a população — projeta Barcellos.
Foco de aftosa à parte, a China não deve conseguir implementar as cotas de salvaguarda na avaliação do coordenador do Nespro. Justamente porque não existem outros grandes fornecedores globais com sobra de produto.
E isso poderia estar fazendo com que a própria indústria brasileira esteja testando o limite do mercado chinês. Os embarques para o país asiático têm sido acelerados desde o início do ano
— Não há outros fornecedores com capacidade para suprir esse volume adicional — diz Barcellos.
Nos dois primeiros meses de 2026, o Brasil exportou 557 mil toneladas de carne bovina, com receita de US$ 2,8 bilhões — altas de 22% em volume e 39% em valor. O ritmo forte não veio só da China, que segue como principal destino, mas também de Estados Unidos, União Europeia, Chile e Rússia, que ampliaram compras, conforme dados divulgados pela Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo).




