
O conflito no Oriente Médio deixou o agronegócio brasileiro de sobreaviso. As atenções se voltam para potenciais efeitos no segmento. Para entender quais impactos podem ser sentidos no curto e no médio prazo, conversamos com o pesquisador e professor do Insper Agro Global Leandro Gilio. Confira abaixo trechos da entrevista que vai ao ar no Campo e Lavoura da Rádio Gaúcha no próximo domingo (8).
Que preocupações o conflito no Oriente Médio traz ao agro?
O Irã em si, foco da guerra, tem um mercado pequeno para o Brasil como um todo, se considerarmos as exportações do agro. Para alguns produtos é um pouco mais relevante, como, por exemplo, o milho, mas a região do Oriente Médio como um todo tem uma importância bastante relevante. Envolve cerca de 10% das exportações, e existem os impactos mais indiretos como o no preço dos fertilizantes. Principalmente se considerar os nitrogenados. E também o petróleo, que acaba impactando, seja no preço dos fertilizantes diretamente ou indiretamente, pela questão dos fretes, dos custos. Além do conflito em si, que acaba prejudicando rotas de exportação, elevando o custo geral.
Para as exportações, a indefinição é o principal efeito?
Exatamente. No mercado de frango, o Brasil tem grande representatividade para os países árabes, é o maior fornecedor global de carne halal, e essa indefinição é bastante complicada. E a questão de elevação de custos acaba impactando muito também, seja pelo desvio das rotas marítimas, seja pela questão de seguro com relação a transportes. Isso acaba encarecendo tudo e vai prejudicando a competitividade, gera essa situação de risco para o produtor e o fornecedor de alimentos. Alguns mercados não sabemos se permanecerão abertos ou não, precisamos ver a desenrolar do conflito.
A guerra se soma à batalha comercial travada pelos Estados Unidos. O que pesa mais?
Contextos de guerra costumam ser um pouco mais temporários. É um momento de uma situação conflituosa e, às vezes, o mercado se reequilibra, a depender da gravidade do conflito. Se tem algum tipo de reequilíbrio após esse conflito inicial, há uma certa estabilidade desse mercado, de alguma maneira. Nas questões que envolvem restrições ao comércio, nessa mudança de paradigma global, acredito que estamos tendo uma reestruturação geral dos mercados. Esse comércio mais administrado, elevação de taxas, barreiras estão gerando bastante insegurança, dificuldade de prever o que vai acontecer, até problemas de investimento. Vai mudando um pouco estruturalmente as tomadas de decisão. Provavelmente, teremos uma transformação um pouco mais estrutural, mas estamos vivendo as duas coisas ao mesmo tempo. E isso acaba trazendo um cenário bastante desafiador em comércio internacional.
A tendência é de que pesem mais os efeitos sobre insumos, como fertilizantes, ou sobre as exportações?
De imediato, um pouco mais envolvendo as exportações mesmo, porque se esses mercados são bloqueados ou fechados, há redução imediata. Com relação aos custos, afetará o produtor um pouco mais nas próximas temporadas, dependendo do quanto vai perdurar a guerra. E estamos vivendo um ano que é um pouco desafiador para o produtor. Ele está vivendo com margens já um pouco reduzidas, dificuldades de crédito, juros altos. Está lidando com custos elevados, daí é mais uma pressão (os efeitos da guerra). De início, tem algum impacto no mercado exportador e depois essa questão dos custos.




