
A jornalista Carolina Pastl colabora com a colunista Gisele Loeblein, titular deste espaço.
A lista da Forbes Under 30 Brasil 2025, que reúne jovens talentos de até 30 anos em diferentes áreas do país, traz um nome gaúcho no agro. Aos 29 anos, Fabiane Kuhn, de São Leopoldo, foi reconhecida pela atuação à frente da Raks Tecnologia Agrícola, empresa focada em soluções de irrigação. À coluna, a empresária falou sobre o reconhecimento, o papel da tecnologia no campo e os gargalos que ainda desafiam o setor. Confira trechos abaixo.
Como foi feita a seleção?
Existem algumas formas de chegar até essa seleção da Forbes. Você pode se inscrever, ser indicado ou, então, ser encontrado pela própria equipe. No meu caso, não me inscrevi. Até hoje não sei se foi via indicação ou se foi pela busca da equipe interna deles. Recebi uma ligação falando que tinha sido selecionada. O que tornou, para mim, particularmente, ainda mais especial.
Para esse levantamento, a Forbes leva em consideração impacto, resultados e história. O que cada palavra diz respeito a sua empresa?
No lado de impacto, trabalhamos com sistema de manejo da irrigação, com foco em auxiliar produtores a definir quando e quanto irrigar. Isso gera uma economia de água, de energia elétrica e um aumento na produção. Então, há impacto ambiental e econômico. Quando olho para resultados, começamos como um projeto de pesquisa científica no Ensino Médio e, hoje, a nossa solução está atuando em 11 Estados no Brasil, em mais de 20 culturas, com resultados diretos a produtores. Então, é resultado do que entregamos para o produtor, mas também o da empresa como um todo. E isso conecta muito com história. Queríamos resolver um problema real.
Conta um pouco mais sobre essa história, a sua e a da sua empresa.
Não tinha contato com agronegócio. Isso tudo surgiu dentro da escola. Fiz técnica em eletrônica e, no final do curso, um trabalho de conclusão. Naquela época, 2014, 2015, o Brasil estava passando por uma crise hídrica onde se falava muito sobre reservatórios operando em volume morto. Eu e o meu colega Guilherme começamos a pesquisar e, através da água, nós chegamos na irrigação. Fomos tentar entender como os produtores do Rio Grande do Sul tomavam a decisão de quando irrigar e nos deparamos com um cenário muito manual. Nesse momento, decidimos desenvolver um projeto. E foi aí o nosso primeiro contato com o agro.
Como a empresa surgiu a partir deste trabalho de conclusão de curso?
O projeto tinha como objetivo auxiliar produtores na tomada de decisão. Definir o momento de irrigação não é fácil: tem que olhar para solo, para planta, para clima, para método. Participamos de diversas feiras, vencemos prêmios. Mas não estávamos cumprindo o objetivo inicial de economizar água. A solução ainda era muito acadêmica. Decidimos, então, abrir a empresa em 2017 e transformamos o projeto de pesquisa em um produto robusto. Fomos incubados na Unisinos. Não tínhamos histórico de empreendedorismo, não tínhamos histórico no agro, éramos jovens, na época, de 18, 19 anos, começando a empreender. Foi uma trajetória muito construída na execução mesmo.
E como chegaram ao patamar que estão hoje?
Nós vimos durante o projeto de pesquisa que os sensores de umidade do solo que eram utilizados ou eram muito manuais ou tinham pouca precisão. Na época, criamos um sensor que funcionava minimamente e fomos aprimorando a tecnologia. Depositamos a patente do equipamento e começamos a trabalhar com produtores gaúchos. Veio a pandemia e não conseguíamos nem visitar mais os produtores gaúchos, então adaptamos o sistema para que qualquer pessoa pudesse instalar e isso nos gerou uma escala que fez com que começássemos a atender outros Estados.

Qual é o tamanho da área que vocês atuam e qual é a principal cultura?
Hoje atuamos em cerca de 5 mil hectares no Brasil, com 20 culturas diferentes. A nossa maior presença está no café. E aí entram dois grandes motivos. Um deles, o valor agregado da cultura e a sensibilidade à água. O quanto ter a umidade correta afeta produzir mais e melhor. E o segundo é que é uma cultura que utiliza muito fertirrigação, aplicação de fertilizantes através da irrigação, e isso faz com que outros sensores comerciais tenham problemas em relação às medidas de umidade. No caso do nosso sensor, da forma como desenvolvemos, não é afetado.
Tem margem para crescer mais? Quais são os próximos passos da empresa?
Com certeza. Hoje o Brasil possui mais de 8 milhões de hectares irrigados. Tem um mercado muito grande. A nossa tecnologia também já está preparada a nível tecnológico, como, por exemplo, em conectividade: não precisa de internet nem sinal telefônico. Trabalhamos com satélite. A nível de próximos passos, estamos visando crescer na cafeicultura, em frutas, em grãos, e também preparando algumas expansões internacionais e lançamento de novos produtos para esses mesmos nichos.
Pode nos adiantar que destinos e que tecnologias são essas?
Em relação a tecnologias, estamos olhando muito para integração com outras tecnologias que os produtores precisem, como controladores de irrigação e pluviômetros automáticos. E sobre outros destinos, estamos começando alguns trabalhos na Costa Rica. Mas seguiremos neste ano com foco no Brasil, porque é um mercado muito grande e com muita oportunidade de se crescer.
A irrigação ganha importância nos tempos atuais, em meio a estiagens seguidas no Estado. Que gargalos ainda existem para se avançar?
A irrigação está crescendo cada vez mais e é uma demanda muito grande porque a instabilidade climática está cada vez mais frequente. É necessário irrigar para se ter segurança alimentar. Há muito tempo se questionava se valia a pena instalar irrigação, por exemplo, na cafeicultura. Hoje, os cafeicultores se questionam se vale a pena plantar sem ter irrigação. Alguns gargalos estão relacionados à liberação de crédito, recurso financeiro.





