
Assim como no tarifaço dos Estados Unidos, a sobretaxa anunciada pela China para a carne bovina do Brasil deve provocar uma movimentação no mercado da proteína. Já em vigor, o percentual adicional de 55% será aplicado quando o volume exportado para o país asiático ultrapassar a cota de 1,1 milhão de toneladas. Há, no entanto, uma diferença em relação a este momento, avalia Júlio Barcellos, coordenador do Núcleo de Estudos em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e Cadeia Produtiva (Nespro):
_ É que não se tem outros fornecedores para compensar (o volume) da sobretaxação. Claro, reduz a competitividade (da carne brasileira), que é mais econômica. Então, o que se espera para essas toneladas (acima da cota) é que tenham um rebate de preço.
O professor cita inclusive um exemplo anterior. Após embargo por conta de um registro de vaca louca, em fevereiro de 2024, a China reduziu o valor na retomada "e desde então vem praticando preços mas baixos".
A Associação dos Criadores do Mato Grosso (Acrimat) pontuou, em nota sobre a salvaguarda anunciada pelos chineses, justamente o efeito que a medida pode ter sobre os valores recebidos pelos produtores. "Sabemos que qualquer incidente seja sanitário ou econômico impacta negativamente no bolso do pecuarista e é ele quem paga toda a conta no final. O último exemplo claro disso foi o tarifaço dos EUA onde os preços da arroba desabaram por conta de um único importador", destacou a entidade.
Além de projetar uma potencial perda de receita de até US$ 3 bilhões em 2026 por conta da medida chinesa, a Associação Brasileira dos Frigoríficos (Abrafrigo) sinalizou preocupação com as consequências à pecuária, por ocorrer em um momento delicado para a pecuária brasileira, marcado por redução de oferta e transição do ciclo pecuário. “É uma medida que pode funcionar como fator de desestímulo para o pecuarista investir mais na atividade”, alertou, na nota.
_ É um banho de água fria _ reforço o presidente do Sindicato das Indústrias de Carne do RS (Sicadergs), Ivon Silva.
Em manifestação conjunta, os ministérios das Relações Internacionais, da Indústria, Comércio e Serviços e da Agricultura, informaram que "o governo brasileiro tem agido de forma coordenada com o setor privado e seguirá atuando junto ao governo chinês tanto em nível bilateral quanto no âmbito da OMC, com vistas a mitigar o impacto da medida e defender os interesses legítimos dos trabalhadores e produtores do setor".
No ano passado, o pais asiático comprou um volume, segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne, de 1,7 milhão de toneladas de proteína bovina do Brasil. Nesse cenário, mais de 30% do volume exportado teria a aplicação da sobretaxa de 55%.
Entenda o caso
O que é a salvaguarda anunciada pelos chineses e por que foi adotada:
A China havia aberto uma investigação para apurar o crescimento das importações de carne bovina entre 2019 e 2024 de diversos países, incluindo, o Brasil.
O pedido de salvaguarda foi apresentado por produtores locais, que alegam prejuízos diante da concorrência internacional.
A aplicação da medida foi anunciada no dia 31 de dezembro de 2025. Impõe quota de importação de carne bovina para os principais países fornecedores do produto ao país asiático, por três anos (de 2026 a 2028).
O Brasil terá uma quota de 1,106 milhão de toneladas em 2026, com incremento de cerca de 2% nos dois anos seguintes. Volumes excedentes sofrerão tarifa adicional de 55%.
Esse percentual se adiciona à tarifa de 12% dos volumes dentro da quota, resultando em tarifa total de 67% para o que ficar de fora do 1,1 milhão de tonelada.
Em 2025, as importações chinesas de carne bovina brasileira somaram cerca de 1,7 milhão de toneladas, o equivalente a 48,3% do volume total exportado, segundo a Abiec.
As salvaguardas são instrumentos de defesa comercial previstos nos acordos da Organização Mundial do Comércio (OMC) utilizados principalmente para lidar com aumentos expressivos de importação.
(Fontes: Mapa, MDIC, MRI, Abiec e Abrafrigo)





