
A jornalista Carolina Pastl colabora com a colunista Gisele Loeblein, titular deste espaço.
O mapa das exportações de carne bovina do Rio Grande do Sul ganhou novos contornos em 2025. Onde antes havia espaços em branco, agora aparecem números robustos vindos do Oriente Médio e do norte da África. As vendas do Estado para os países da Liga Árabe somaram US$ 52,77 milhões no ano passado, um salto de 154% em relação a 2024 — crescimento puxado por mercados que, até pouco tempo atrás, mal figuravam no radar dos frigoríficos gaúchos.
O caso mais emblemático é o Egito. Em um único ano, as compras de carne bovina gaúcha pelo país dispararam 1.356%, chegando a US$ 10,46 milhões.
— As exportações do Rio Grande do Sul para o Egito saíram de um patamar muito próximo do zero, indicando que o comércio entre o Estado e o país árabe simplesmente teve um impulso — explica Mohamad Orra Mourad, secretário-geral da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira.
Em meio a tarifaços, tensões comerciais e incertezas nas cadeias globais de alimentos, os países árabes decidiram reforçar seus estoques, continua Mourad:
— Quase todos os Estados brasileiros avançaram suas vendas para a região. Isso mostra que os árabes fizeram um esforço adicional para garantir segurança alimentar.
O Brasil, dono do maior rebanho comercial do mundo, estava na posição certa para atender essa demanda — e o Rio Grande do Sul, com oferta organizada, aproveitou a brecha.
Além do Egito, mercados tradicionais voltaram às compras com mais apetite, enquanto outros começaram a surgir com força, caso da Argélia.
— Houve uma atuação mais focada dos frigoríficos para desenvolver mercados recém-abertos, especialmente a Argélia, que desde 2024 vem elevando progressivamente suas compras do Brasil — diz o dirigente da Câmara Árabe.
O tipo de carne embarcada também ajuda a explicar o encaixe. A preferência da Liga Árabe segue sendo por cortes dianteiros inteiros e congelados, usados em pratos que pedem cozimento longo e paciente. Mas há uma mudança silenciosa em curso.
— Vemos um avanço no segmento de carnes premium, porcionadas, orgânicas e livres de alimentação transgênica, puxado por redes hoteleiras e de food service de alto padrão — observa Mourad.
É nesse ponto que o boi gaúcho ganha sotaque diferenciado. O rebanho do Estado, majoritariamente de raças europeias, tem perfil adequado para carnes de maior valor agregado.


