
A jornalista Carolina Pastl colabora com a colunista Gisele Loeblein, titular deste espaço.
O setor do leite terminou 2025 com gosto amargo para quem produz: o preço pago ao produtor caiu ao menor patamar do ano. Este cenário, de preços próximos de R$ 2,00 por litro, foi retratado no boletim do Centro de Inteligência do Leite (CILeite), da Embrapa Gado de Leite, referente ao mês de dezembro. Para 2026, porém, o setor volta a enxergar no horizonte uma lenta recuperação dos preços.
A perda de fôlego começou a ficar clara ainda no outono. A partir de abril, o preço do leite pago ao produtor entrou em trajetória de queda, movimento que se intensificou no último trimestre. Clima favorável e custos mais controlados no início do ano impulsionaram a produção, de acordo com Glauco Carvalho, pesquisador da Embrapa Gado de Leite, mas o consumo não acompanhou esse ritmo.
A produção nacional, que tradicionalmente cresce entre 2% e 3% ao ano, deve fechar 2025 com alta entre 7% e 8%, enquanto o consumo avançou, no máximo, 2%.
Além disso, apesar de leve recuo em relação a 2024, as importações seguiram elevadas e somaram 2,14 bilhões de litros de leite equivalentes, o terceiro ano consecutivo acima da marca de 2 bilhões. Carvalho, ainda assim, pondera:
— O grande volume adicional veio da produção interna, não da importação.
No Rio Grande do Sul, a pressão foi ainda maior. Segundo o secretário-executivo do Sindicato da Indústria de Laticínios do RS (Sindilat), Darlan Palharini, a produção gaúcha cresceu mais de 12% em relação a 2024, acima da média nacional:
— Isso gerou superoferta e pressionou diretamente o preço pago ao produtor, especialmente porque as indústrias estão com estoques elevados de leite em pó e queijo.
O que esperar de 2026
É nesse ambiente de margens apertadas, estoques elevados e consumo reagindo lentamente que o setor entra em 2026, um ano que promete menos euforia e mais cautela. A primeira diferença é de que a oferta tende a crescer menos, segundo Carvalho. A expectativa é de avanço entre 1% e 1,5%, bem distante do salto observado em 2025, movimento que também deve se repetir no mercado internacional, diante do aperto nas margens.
— A tendência é de alguma recuperação do preço ao produtor ao longo do segundo semestre, mas nada muito forte — projeta o pesquisador da Embrapa.
Mesmo assim, surgem sinais pontuais de alívio. O primeiro leilão da plataforma Global Dairy Trade (GDT), referência do mercado internacional de lácteos, em janeiro, apontou alta de 6,3%, reacendendo a expectativa de melhora gradual nos preços. Do lado dos custos, a perspectiva de boas safras de milho e soja ajuda a aliviar a pressão sobre a alimentação animal.
— O custo pode ser a boa notícia do ano. Não resolve tudo, mas reduz um pouco a tensão dentro da fazenda — aposta ainda Carvalho.






