
A jornalista Carolina Pastl colabora com a colunista Gisele Loeblein, titular deste espaço.
Símbolo de prosperidade na virada do ano, a lentilha tem lugar garantido na mesa do Réveillon brasileiro — mas ainda ocupa pouco espaço nas lavouras do país. Em 2024, o consumo interno foi suprido quase integralmente por importações: cerca de 13,9 mil toneladas, principalmente do Canadá — maior exportador mundial —, além de Argentina e Estados Unidos. O volume movimentou US$ 19,7 milhões, segundo dados do comércio exterior. Procurado pela coluna, o pesquisador da Embrapa Hortaliças Warley Nascimento esclareceu a questão à coluna.
A explicação passa pelo clima, mas não só. A lentilha é uma cultura de inverno, adaptada a temperaturas mais amenas, de acordo com Nascimento. No Brasil, encontra melhores condições apenas no Sul, no Sudeste e em áreas de maior altitude do Cerrado.
Em sistemas irrigados de inverno, especialmente no Cerrado, a cultura pode alcançar produtividades entre 1,2 mil e 1,5 mil quilos por hectare. Mesmo assim, segue restrita a nichos, muitas vezes ligada à agricultura familiar. No Rio Grande do Sul, há registros pontuais de cultivo e conservação de sementes, possivelmente associados à colonização italiana e alemã, onde o consumo sempre esteve mais presente.
Outro entrave é cultural — e comercial, acrescenta o pesquisador:
— Afinal, a nossa leguminosa é o feijão. O consumo é bem maior e não deixa margem para a lentilha.
Além disso, a lentilha custa, em média, cinco a seis vezes mais por quilo, o que a transforma em item sazonal para boa parte da população. O mercado, historicamente dominado por importadores, também pouco estimula a produção nacional, relata o pesquisador.

A Embrapa Hortaliças conduz programas de melhoramento genético em parceria com outras instituições, com foco na adaptação da lentilha ao Centro-Sul e ao Cerrado brasileiro. O trabalho busca cultivares mais produtivas, com qualidade superior de grãos e resistência a estresses térmicos e hídricos.




