
A jornalista Carolina Pastl colabora com a colunista Gisele Loeblein, titular deste espaço.
Depois de dominar o comércio internacional, o Brasil chega ao topo também dentro da porteira. Em 2025, o país deve se tornar, pela primeira vez, o maior produtor mundial de carne bovina, superando os Estados Unidos. A projeção é do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), que estima uma produção brasileira de 12,35 milhões de toneladas, contra 11,81 milhões de toneladas dos norte-americanos.
O feito vem em um ano que começou sob desconfiança. Havia expectativa de retração, mas o campo respondeu de outro jeito. O volume representa crescimento de cerca de 4% em relação a 2024, quando o Brasil produziu aproximadamente 11,9 milhões de toneladas. A conta fechou graças a uma combinação de fatores: mais abates, peso médio elevado e uma pecuária que, mesmo pressionada, mostrou resiliência.
Um dos números que ajudam a explicar o resultado está no ganho da carcaça. Em setembro, o peso médio dos machos abatidos chegou a 303 quilos por animal, patamar recorde. Em alguns meses, a produção nacional superou 1 milhão de toneladas de carne bovina, algo que poucos países conseguem sustentar com regularidade.
Segundo o coordenador do Núcleo de Estudos em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte (NESPro), Júlio Barcellos, a liderança brasileira é fruto mais do volume de abates do que de um salto expressivo de produtividade:
— A produção é calculada pelo número de animais abatidos multiplicado pelo peso de carcaça. Em 2025, a dificuldade econômica atrasou a retenção de matrizes e levou a um aumento do abate, especialmente no primeiro semestre. Isso elevou a produção total.
Do outro lado da disputa, os Estados Unidos vivem o movimento inverso. O país enfrenta o menor rebanho em cerca de 70 anos, com produtores migrando para outras atividades e reduzindo o número de animais abatidos. O resultado foi um recuo na oferta, abrindo espaço para que o Brasil assumisse a liderança, ainda que por uma margem estreita.
A escala brasileira também pesa, continua Barcellos. O país reúne um grande rebanho, uma indústria frigorífica espalhada pelo território e avanços contínuos em nutrição, manejo, genética e integração de sistemas, fatores que ajudam a sustentar volumes elevados com competitividade. Essa base produtiva reforça outro protagonismo: o do comércio exterior.
Presente em mais de 160 mercados, o Brasil segue como maior exportador mundial de carne bovina. Para o presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), Roberto Perosa, a liderança na produção fortalece a confiança dos compradores:
— Produção em escala, produtividade crescente e eficiência industrial garantem regularidade de oferta e competitividade, permitindo atender diferentes destinos ao longo do ano.
No Rio Grande do Sul, a participação ainda é modesta — historicamente entre 0,1% e 0,2% das exportações brasileiras —, mas há sinais de avanço. A chegada de uma indústria com atuação internacional e estímulos ao produtor ajudaram a ampliar a presença da carne gaúcha no exterior em 2025. O desafio, segundo Barcellos, está na rastreabilidade e no atendimento às exigências de mercados como União Europeia e China.
O título de maior produtor mundial, porém, vem com um alerta, acrescenta o coordenador do NESPro:
— Cada bovino americano produz cerca de 150 quilos de carne; o brasileiro, em média, 50 quilos. Nossa eficiência ainda é baixa. O caminho agora é investir em tecnologia para crescer em produtividade, não apenas em volume.



