
A jornalista Carolina Pastl colabora com a colunista Gisele Loeblein, titular deste espaço.
A importação de máquinas agrícolas, especialmente da Ásia, ganhou espaço no agronegócio brasileiro — e acendeu um sinal amarelo para a indústria nacional. Preço baixo e financiamento facilitado ajudam a explicar o avanço, identificado, principalmente, em licitações públicas. Mas o barato, alertam representantes do setor, pode sair caro lá na frente.
Dados da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) mostram que a presença de máquinas importadas no faturamento do setor saltou de 4% há quatro anos para 10% atualmente. O movimento é puxado, principalmente, por equipamentos vindos da China. De janeiro a novembro de 2025, os chineses exportaram US$ 98,1 milhões em máquinas agrícolas, valor 35,26% maior se comparado com 2024, conforme números Comex Stat. O volume não considera venda de tratores.
Para Igor Calvet, presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), o problema não está na concorrência em si, mas na assimetria. De acordo com o dirigente, 80% do maquinário adquirido via licitações públicas tem origem asiática.
— As máquinas produzidas no Brasil têm a mesma qualidade e tecnologia das importadas. O que muda é o contexto. Muitos equipamentos estrangeiros chegam ao país com preços agressivos e linhas de crédito generosas, mas sem estrutura de pós-venda, manutenção ou reposição de peças — acrescenta Calvet.
O avanço das importações também preocupa a Abimaq. Pedro Estevão, presidente da Câmara Setorial de Máquinas e Implementos Agrícolas (CSMIA), aponta um fator adicional: as emendas parlamentares conhecidas como “PIX” (repasse direto de verbas federais para Estados e municípios como transferências especiais, sem convênios complexos, agilizando o dinheiro, mas gerando debates sobre transparência).
— O deputado envia o recurso ao município, e a licitação leva em conta basicamente o menor preço. Não se avalia conteúdo local, garantia, assistência técnica. Além disso, não faz sentido usar dinheiro público para gerar empregos fora do país — argumenta Estevão.
Enquanto isso, lembram os dirigentes, a indústria nacional opera sob condicionantes macroeconômicas mais duras, como custo do crédito, carga tributária e infraestrutura. A projeção das associações, inclusive, é de que o setor feche 2025 com o freio puxado em termos de vendas, entre internas e externas.





