
A jornalista Carolina Pastl colabora com a colunista Gisele Loeblein, titular deste espaço.
O avanço do endividamento atingiu um nível histórico no campo — e tem no Rio Grande do Sul o pior índice. Em junho, por exemplo, o Estado respondeu por 27% de toda a dívida rural do país e registrou inadimplência de 25% nas operações (atrasadas e renegociadas), segundo dados apresentados pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) nesta terça-feira (9).
Os números são do Banco Central e ajudam a dimensionar o quadro: a inadimplência das carteiras de crédito rural para pessoas físicas saltou de 0,59% em janeiro de 2023 para 11,4% em outubro de 2025 nas operações com taxas de mercado — o maior patamar desde o início da série. Nas linhas com taxas reguladas, o índice chegou a 2,4%, também em alta.
Entre as causas, o diretor técnico da CNA, Bruno Lucchi, destaca as sucessivas quebras climáticas que atingiram principalmente Rio Grande do Sul, Paraná e Mato Grosso do Sul, comprometendo safra após safra. Entre 2013 e 2024, as perdas somaram R$ 72 bilhões, sendo 57% apenas da agropecuária.
A isso se somam a forte queda nos preços das commodities — com a soja acumulando quase metade de desvalorização em determinados momentos — e a redução no seguro rural. A cobertura, que era de 30% da área agrícola em 2021, caiu para apenas 5% neste ano.
— E, no caso do RS, produtores que cumprem todos os requisitos continuam enfrentando dificuldades para acessar crédito. A medida provisória 1.314 (que dispõe sobre a linha do BNDES R$ 12 bi para renegociação de dívidas rurais), apresentada como alternativa ao PL 5.122 (prevê o uso do Fundo Social do pré-sal como base para financiar a renegociação das dívidas rurais), não tem cumprido plenamente seu propósito — acrescenta o diretor técnico.
A entidade trabalha para instalar com urgência a comissão mista que avaliará a MP 1.314, antes do fim do prazo de prorrogação. Paralelamente, a CNA defende ainda medidas que reduzam custos acessórios no crédito — como taxas cartoriais e diferenças regionais no registro de cédulas — e que aumentem a eficiência do Plano Safra. O fortalecimento do seguro rural é outra questão considerada peça-chave, diz Lucchi:
— O Congresso aprovou o fim do contingenciamento do seguro rural, e esperamos que não haja veto. Além disso, trabalhamos para ampliar o seguro privado, com ajustes legais que tornem o ambiente mais atrativo.
Inadimplência do Crédito das Carteiras de Pessoas Físicas (%)
Com taxas de mercado
Evolução aproximada:
- 3,54% (out/24)
- 3,77% (nov/24)
- 3,75% (dez/24)
- 4,32% (jan/25)
- 4,73% (fev/25)
- 4,6% (mar/25)
- 5,2% (abr/25)
- 5,48% (mai/25)
- 5,83% (jun/25)
- 7,69% (jul/25)
- 9,44% (ago/25)
- 10,02% (set/25)
- 11,4% (out/25)
Com taxas reguladas
Evolução aproximada:
- 1,34% (out/24)
- 1,39% (nov/24)
- 1,1% (dez/24)
- 1,33% (jan/25)
- 1,42% (fev/25)
- 1,39% (mar/25)
- 1,5% (abr/25)
- 1,52% (mai/25)
- 1,53% (jun/25)
- 1,74% (jul/25)
- 1,87% (ago/25)
- 1,94% (set/25)
- 2,4% (out/25)
Fonte: Banco Central




