
A jornalista Carolina Pastl colabora com a colunista Gisele Loeblein, titular deste espaço.
Mesmo com safra recorde e PIB positivo, o mercado de máquinas agrícolas terminou 2025 com o freio puxado — e a projeção para 2026 é de que a cautela continue. A leitura é da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), que representa as montadoras, e foi reforçada pelo presidente da entidade, Igor Calvet, nesta quinta-feira (18). O setor até ensaia reação em alguns indicadores, mas segue distante de uma retomada mais robusta, especialmente no segmento de média e alta potência.
De janeiro a outubro, as vendas no atacado cresceram 18,4%, somando 47,5 mil unidades. No varejo, porém, houve leve retração de 0,7%, com 43 mil máquinas comercializadas. A aparente contradição tem explicação: a alta no atacado ocorreu sobre uma base muito fraca de 2024 e foi puxada, principalmente, pelo reforço de estoques nas concessionárias e pela venda de tratores de baixa potência, com menor valor agregado.
— Foi um ano muito difícil. Apesar da boa safra e de um PIB positivo, ficou aquém do que o setor esperava — resume Calvet.
Para evitar desligamentos nas fábricas, a indústria manteve a produção e transferiu parte do ajuste para a rede de concessionárias, que hoje carrega estoques elevados. Isso pressiona a rentabilidade do varejo e obriga o setor a buscar alternativas, como negociações trabalhistas e flexibilizações de jornada.
A queda nas vendas começou em 2023, com a manutenção de juros elevados e o aumento do endividamento dos produtores. O crédito encolheu: nos últimos 12 meses, a concessão para pessoas jurídicas caiu 2%, enquanto a inadimplência chegou a 3,7% em outubro — o maior patamar desde 2017.
— Não vejo uma crise do agro, mas há serviços e produtos que não tem conseguido acompanhar o crescimento recorde do setor na mesma proporção — avalia Calvet, citando a inadimplência maior
O sinal mais claro dessa cautela aparece no Moderfrota. Mesmo no fim do ano, ainda há recursos disponíveis, indicando baixa intenção de compra ou pouca confiança no cenário de curto prazo. Na contramão, o Pronaf teve desempenho positivo, sustentando as vendas de tratores de baixa potência voltados à agricultura familiar, beneficiados por juros mais atrativos, entre 3% e 8% ao ano.
O que esperar de 2026
Para o próximo ano, a expectativa é de um PIB novamente positivo, porém menor que o de 2025. A safra deve ser boa, mas dificilmente repetirá o recorde atual. Some-se a isso a pressão sobre os preços das commodities, os custos elevados de insumos dolarizados e um ano eleitoral, tradicionalmente marcado por incertezas e instabilidade nos mercados.
— A taxa de juros pode até começar o ano em queda, mas o impacto real só aparece no final. Não há variáveis que indiquem um ano fácil.
Na prática, a projeção é de estabilidade: nem grandes ganhos, nem grandes perdas. “Vamos andar de lado”, define o presidente da Anfavea. O risco, segundo ele, é de médio prazo: com produtores operando máquinas mais antigas por mais tempo, pode haver estagnação — ou até queda — de produtividade no campo.






