
A jornalista Carolina Pastl colabora com a colunista Gisele Loeblein, titular deste espaço.
A paisagem agrícola da Fronteira Oeste começa a receber um experimento que, se der certo, pode ganhar escala nos próximos anos: a convivência estruturada entre lavouras de soja e apiários. A iniciativa, que está no modo piloto em São Gabriel, reúne seis sojicultores e 24 apicultores em um projeto da Basf, multinacional do ramo de defensivos agrícolas, que busca unir produtividade e conservação ambiental — e que já nasce apoiado por pesquisas da Embrapa.
Durante a floração da soja, a presença de abelhas pode elevar em até 13% a produtividade das lavouras. No sentido inverso, os apiários chegam a triplicar a produção de mel quando posicionados próximos às áreas cultivadas. E o mel resultante, mais claro e aromático, encontra mercado diferenciado.
— Tivemos apiários que produziram mais de 50 quilos só na florada da soja, o dobro da média nacional — relata o apicultor Aldo Machado, referência na região e peça-chave na escolha de São Gabriel como área piloto.
O projeto — que concorreu a um fundo interno global da Basf e passou a receber recursos neste ano — tem duração prevista de três anos. A empresa oferece assistência técnica, promove treinamentos e acompanha o manejo no campo, ao lado do pesquisador da Embrapa Soja, Décio Gazzoni. A iniciativa também se apoia em uma cartilha de boas práticas para integração entre agricultura e apicultura, desenvolvida em parceria por Basf e Embrapa ao longo de três safras e publicada pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) — disponível em seu site.
Segundo Maurício do Carmo Fernandes, gerente de Stewardship e Sustentabilidade da Basf, o diferencial está na cooperação e na comunicação. O manejo das lavouras não muda radicalmente: a aplicação de defensivos segue as recomendações técnicas, mas passa a ser previamente comunicada aos apicultores por meio de um sistema digital. Com isso, ajustes simples — como cobertura ou remoção temporária das caixas — são combinados quando necessário.
— As experiências de campo mostram que, com diálogo e planejamento, não temos registrado problemas de mortalidade de abelhas — afirma Fernandes.
Além do ganho produtivo, cada quilo de mel obtido no projeto gera o plantio de mudas nativas, reforçando áreas de pasto apícola e contribuindo para a recuperação ambiental da região.
A primeira fase vai até abril e, se os resultados forem positivos, a ideia é expandir para municípios vizinhos.
— É um piloto para mostrar que dá para fazer o simples bem feito: acompanhar aplicações, garantir manejo responsável e aproveitar o potencial que já existe na interação entre soja e abelhas — acrescenta o gerente da empresa.




