
A jornalista Carolina Pastl colabora com a colunista Gisele Loeblein, titular deste espaço.
Diante da previsão de um novo episódio de La Niña na próxima safra de verão — fenômeno que historicamente influencia em estiagens no Rio Grande do Sul —, especialistas alertam que o Estado segue vulnerável por não ter avançado na irrigação. No Tá Na Mesa da Federasul desta quarta-feira (26), o economista-chefe da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul), Antônio da Luz, e o senador Luis Carlos Heinze defenderam dois fatores para explicar o atraso: entraves ambientais acumulados ao longo de décadas e a atual crise de crédito que atinge o setor produtivo.
Segundo Da Luz, normas rígidas e interpretações consideradas excessivas frearam por anos a expansão dos sistemas de irrigação, tornando áreas de proteção permanente “santuários”, onde praticamente qualquer intervenção virava um obstáculo burocrático. Ele mencionou casos em que até mesmo a instalação de um pivô central — equipamento “que só joga água”, como ironizou — exigia licenciamento complexo. Embora reconheça avanços recentes em decisões do Conselho Estadual do Meio Ambiente (Consema) e na legislação aprovada pela Assembleia, o economista afirma que “vieram tarde”, após sucessivas estiagens já terem comprometido a renda do produtor.
Além do peso regulatório, a escassez de crédito se tornou um segundo bloqueio. Depois de anos de perdas provocadas pela falta de chuva, muitos produtores estão endividados e sem capacidade de investir. Da Luz destaca que a irrigação exige aportes elevados — em média, equivalentes ao valor do próprio hectare — justamente num momento em que, segundo ele, o país vive “a maior crise de crédito desde o Plano Real”. A oferta de recursos para irrigação teria caído 38% em relação ao ano anterior, tornando ainda mais difícil a adoção de tecnologias capazes de reduzir os impactos de novas estiagens.
— O Rio Grande do Sul está ficando pobre, e rápido. É como se tivéssemos perdido mais de uma safra inteira — afirmou o economista, ao apresentar números das perdas causadas pelas estiagens na ocasião.
Segundo ele, de 2020 a 2025, o Estado deixou de colher 48,6 milhões de toneladas de grãos.
Para ilustrar o tamanho do prejuízo, ele recorreu a uma imagem impactante:
— Se colocássemos todo esse grão perdido em caminhões, daria para ir de Porto Alegre a Belém e voltar três vezes. E ainda sobraria fila até Belo Horizonte.
Essas perdas representam R$ 126 bilhões apenas aos produtores rurais. Para a economia gaúcha como um todo, o impacto chega a quase R$ 400 bilhões, o equivalente a 49% do PIB do Estado.
Da Luz também relacionou a volatilidade produtiva ao esvaziamento populacional do Estado:
— Estamos perdendo juventude, talentos, e isso tem relação direta com a instabilidade econômica provocada pelas estiagens.
Enquanto isso, Heinze apresentou o trabalho que coordena em 65 municípios das regiões Missões, Noroeste, Planalto e Celeiro. O projeto, desenvolvido por professores da UFRGS e pelo técnico Rogério Porto, mapeia áreas adequadas para construção de açudes.
— Já marcamos 9.780 açudes. Eu já entreguei 3.286. Esses açudes podem irrigar 225 mil hectares — quase metade do que o Estado irriga hoje por aspersão — afirmou Heinze.
No total, 35 municípios já possuem diagnóstico concluído.
Heinze estima que, ao final do projeto, será possível superar 500 mil hectares irrigáveis apenas nessas regiões. O custo total, segundo ele: R$ 10 a 12 bilhões.
— Isso não é gasto. É investimento produtivo — defendeu ainda o senador.



