
A jornalista Carolina Pastl colabora com a colunista Gisele Loeblein, titular deste espaço.
O café brasileiro pode até ser o mais querido nas xícaras americanas, mas anda com gosto de incerteza. O anúncio do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de reduzir parte das tarifas sobre o produto animou o setor — que enxerga na medida uma luz no fim do túnel. Depois de meses de exportações em queda brusca, o mercado vê uma chance real de retomada, desde que o o governo brasileiro saiba aproveitar a oportunidade.
Diretor-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), Celírio Inácio defende que é hora de agir:
— É essencial que o Brasil atue com firmeza e agilidade para garantir que o café brasileiro seja incluído nessas tratativas. O nosso café é reconhecido mundialmente pela qualidade, sustentabilidade e tradição, e é um produto vital para o consumo americano.
No início deste mês, o governo americano sinalizou, por decreto, que produtos sem produção doméstica, como o café, poderiam ter isenção tarifária. Mas há um “porém”: a liberação dependerá de acordos bilaterais. Ou seja, não basta torcer — será preciso diplomacia e articulação política.
“Tem café parado no porto”
Segundo o Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), as exportações para os EUA despencaram 54,4% em outubro, após o tarifaço de 50% implementado em agosto.
E quem vive o dia a dia do grão sente o impacto de perto desse cenário. O vice-presidente da Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA), Luiz Roberto Saldanha, diz que o otimismo ainda é moderado:
— Recebemos a notícia com entusiasmo, mas o cenário é de bagunça. Há contratos cancelados, embarques parados e cafés encalhados em portos porque os importadores não conseguem pagar as tarifas..
Os Estados Unidos são, de longe, o maior comprador do café brasileiro — especialmente dos cafés especiais. O país consome 25 milhões de sacas por ano, sendo 2 milhões de cafés premium.
— O café especial não é uma commodity de volume. Ele é vendido por relacionamento, por confiança. É o cliente que volta porque reconhece o sabor e a origem. Perder esse espaço seria uma perda irreparável — lamenta Saldanha.
O Brasil, que colhe cerca de 60 milhões de sacas por safra, é o principal fornecedor dos EUA, respondendo por 30% do mercado americano.
O dirigente reforça que o próximo passo depende da habilidade política:
— Há diferentes linhas de negociação. Uma é bilateral, produto a produto. Outra, mais ampla, exige diplomacia entre governos. Os EUA não são autossuficientes em café, e isso precisa ser lembrado na mesa de negociação.





