
A jornalista Carolina Pastl colabora com a colunista Gisele Loeblein, titular deste espaço.
De curta duração, mas com força para acender o alerta nas lavouras. Essa é a previsão, por ora, do efeito do La Niña na safra de verão no Rio Grande do Sul que foi divulgada nesta quinta-feira (6), na sede da Superintendência do Ministério da Agricultura, em Porto Alegre.
O resfriamento do Pacífico foi confirmado pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA na sigla em inglês) dos Estados Unidos, e os modelos indicam probabilidade de 60% a 65% de manutenção do fenômeno até janeiro, segundo o meteorologista Glauber Ferreira, coordenador de Monitoramento e Previsão Climática do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) em Brasília:
— É uma La Niña fraca a moderada, com tendência de neutralização no primeiro trimestre de 2026.
Novembro, dezembro e janeiro devem registrar déficit de 50 a 75 milímetros de precipitação e temperaturas até 1°C acima do normal. A combinação preocupa: o solo gaúcho ainda carrega a herança de estiagens sucessivas, e o armazenamento hídrico tende a se agravar no início do ciclo da soja.
Para o agrometeorologista Gilberto Cunha, da Embrapa Trigo, o cenário exige cautela, mas não pânico:
— Não é uma tragédia anunciada, mas é um ano de alerta. Precisamos fazer gestão técnica, com menos otimismo e mais racionalidade. O foco é reduzir riscos.
Entre as medidas práticas, ele recomenda escalonar épocas de plantio, usar cultivares de ciclos diferentes e reforçar o solo como reservatório de água.
Superintendente do Ministério da Agricultura no RS, José Cleber de Souza reforça que a irrigação não é a única solução:
— O que precisamos é de solo estruturado e manejo de processo, que observe o ciclo das águas e o papel de cada cultura dentro do sistema.
Chefe-geral da Embrapa Trigo, Jorge Lemainski reforça que o enfrentamento da variabilidade climática passa por uma mudança de mentalidade:
— O que a planta necessita? Água, pH e nutrientes. Essa é a essência. E como favorecer isso? Com práticas simples, de alto impacto e baixo custo, como o plantio em contorno e a rotação de culturas.
Da Embrapa Clima Temperado, o pesquisador Giovani Theisen observa que a metade sul do Estado vive o maior desafio:
— É a região onde a soja mais cresceu e também onde mais se perdeu por estiagem. Em cinco anos, foram três safras frustradas por seca e uma por excesso de chuva.
Com cerca de 80% da área de soja ainda a ser semeada, Theisen vê espaço para ajustes e elenca:
- Evitar preparo excessivo do solo, mantendo cobertura vegetal e reduzindo a evaporação;
- Optar por subsolagem ou escarificação, em vez de revolvimento total;
- Aplicar fertilizantes conforme a análise de solo — sem excessos;
- Usar defensivos apenas quando houver necessidade técnica comprovada.


