
A jornalista Carolina Pastl colabora com a colunista Gisele Loeblein, titular deste espaço.
Com o preço de mercado cerca de R$ 20 abaixo do mínimo estabelecido pelo governo federal, o trigo está na relação dos produtos do agro "em crise". E para tentar frear esse recuo, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) anunciou nesta sexta-feira (07) medida de apoio. Serão aplicados R$ 67 milhões para a comercialização e o escoamento de até 250 mil toneladas de produto do Rio Grande do Sul e do Paraná.
Desse total, a maior parte, 148 mil toneladas, virá do Estado gaúcho. Para o setor produtivo, no entanto, falta ainda fôlego para que o produtor volte a respirar aliviado.
Aguardada há semanas, a medida vem nesse momento delicado, com o preço tendo despencado abaixo do mínimo fixado pela Política de Garantia de Preços Mínimos (PGPM). Essa diferença será compensada por meio dos mecanismos Prêmio Equalizador Pago ao Produtor Rural (Pepro) e Prêmio de Escoamento do Produto (PEP).
O plano da Conab prevê que os leilões — em que há a definição de quem receberá o subsídio — comecem dentro de 15 dias, após a assinatura de uma portaria interministerial.
— Essa ação garante o escoamento e mantém o estímulo para o produtor continuar no campo — argumentou o presidente da Conab, Edegar Pretto, ao anunciar o programa.
Diretor da Federação das Cooperativas Agropecuárias do Estado do Rio Grande do Sul (FecoAgro-RS), Sérgio Feltraco avaliou a medida na ocasião:
— Qualquer conta mostra que não é o suficiente, mas é importante, porque dá liquidez e ajuda o produtor a seguir plantando.
Pretto também reconheceu que a verba é limitada, mas disse que o governo busca reforço orçamentário para novas operações em 2026:
— Mas seguimos em diálogo para ampliar as políticas de apoio ao trigo e a outras cadeias que também sofrem com a queda de preços.
Feltraco lembrou que, nos últimos cinco anos, o Rio Grande do Sul produziu cerca de 20 milhões de toneladas de trigo, das quais metade foi exportada. O Estado, que responde por 40% da produção nacional, tem hoje um mercado saturado, com preços em queda e espaço limitado para armazenagem.
Na outra ponta da cadeia, a indústria também sente o peso da desvalorização. O diretor da Abitrigo, José Antoniazzi, lembrou que os moinhos gaúchos moem cerca de 2 milhões de toneladas por ano, e que a qualidade do trigo gaúcho é reconhecida internacionalmente — mas, paradoxalmente, o grão local está mais barato no porto do que o argentino.
— Trigo barato é ruim para o produtor e para toda a cadeia. A intervenção é necessária, ainda que modesta — avaliou Antoniazzi.
O cenário internacional, de supersafras e dólar valorizado, também ajuda a explicar o tombo nas cotações. Rússia e Argentina tiveram colheitas abundantes, o que inundou o mercado mundial e pressionou os preços internos.
Por outro lado, o clima, desta vez, foi aliado. Mesmo com redução de 13,7% na área semeada, o Rio Grande do Sul deve colher 3,7 milhões de toneladas, com produtividade acima da média.
— O clima fez o que o investimento tecnológico não conseguiu — resumiu Feltraco.



