
A produção de carne e a pecuária também ganharam espaço nos debates da COP30, no Pará. Conhecida sua por falar sobre o tema em dois podcasts, Em Defesa da Carne e Os Agronautas, a doutora em Economia Comportamental Lívia Padilha participou do evento em Belém. E voltou a destacar que a atividade, questionada em razão da emissão de metano, é parte da solução na equação dos problemas climáticos. Em entrevista ao Campo e Lavoura, da Rádio Gaúcha, ela falou sobre o tema. Confira trechos.
Como a pecuária se coloca diante dos desafios climáticos?
Na palestra que apresentei na COP30, o título era justamente em defesa da carne: "Como desmistificar a pecuária". E um dos itens que deixei em destaque é justamente o "pum" do boi, que, na verdade é o arroto, uma erupção que faz com que ele solte gás metano. Mas quando entendemos o ciclo desse carbono, notamos que é natural, biogênico, como se diz. Sim, esse gás causa estufa de uma forma muito potente, mas se quebra na atmosfera depois de 10 a 12 anos e é puxado, digamos assim, pelo processo de fotossíntese das plantas, do pasto crescendo. É muito diferente, por exemplo, dos combustíveis fósseis. Nesse caso, o gás vai para a atmosfera e fica lá. Não ocorre fotossíntese.
Então é possível continuar comendo carne?
Com certeza. Uma das coisas que eu vi bastante na COP30 e ao reler muitos trabalhos desenvolvidos na última década é que a gente pode, sim, ter produtos de origem animal como fontes de proteína e gordura saudável. E, se bem manejados, esses animais podem ser parte da solução para as questões climáticas, e não do problema. Temos que insistir nessas muitas ferramentas voltadas à pecuária regenerativa, à intensificação, à recuperação de pastagens. Nós já somos protagonistas no agro em vários sentidos, mas podemos ter esses produtos como parte de uma alimentação saudável e também aliados às mudanças climáticas.
O que a despertou para esse universo da carne?
Eu sou natural de São Leopoldo e tenho uma forte ligação com o setor coureiro e calçadista. A minha paixão de conversar e estudar mais a fundo sobre a carne bovina e outros tipos de carne veio por uma questão de saúde, nutrição. São vários interesses e que me levaram até a Austrália (ela é doutora pela Universidade de Adelaide) para pesquisar sobre esses temas.
Por que você sentiu a necessidade de fazer a defesa da carne?
Não só na questão ambiental, mas também na saúde, vemos a carne bovina ou vermelha, muitas vezes, vilanizada. Há muitas falsas narrativas que eu via de forma muito forte quando estudei doutorado na Austrália e que aqui, no Brasil, era igual. As pessoas achavam que a carne fazia mal para a saúde, que estavam fazendo mal para o meio ambiente e isso tudo já tem comprovação científica que não é verdade. Muitos desses mitos e essa vontade de esclarecer isso para o público me levaram a essa trajetória de comunicação científica.
Como faz para monitorar o mundo inteiro?
Às vezes as pessoas imaginam que a gente não tem um monitoramento muito preciso, mas temos, como o MapBiomas, como o CAR (Cadastro Ambiental Rural). Neles há ali todo o percentual que pode ser utilizado para agropecuária e o que não pode. A Embrapa, inclusive, fez um estudo com base nesses dados mostrando que 29% das matas nativas do Brasil preservadas estão dentro das propriedades rurais.





