
A jornalista Carolina Pastl colabora com a colunista Gisele Loeblein, titular deste espaço.
Uma mudança está acontecendo em prateleiras de azeites de oliva — e começa com um número a menos no rótulo. A marca gaúcha Prosperato decidiu retirar a acidez do rótulo dos seus produtos. O movimento, segundo a empresa de Caçapava do Sul, é pioneiro no país e faz parte de um esforço maior para educar o consumidor e adotar práticas mais transparentes, alinhadas com o que já é tendência em mercados como Espanha, Itália e Portugal.
— Já era algo que vínhamos estudando há tempo. Observamos que, na Europa, os principais produtores deixaram de colocar a acidez no rótulo por entender que essa informação não faz sentido para o consumidor final — explica o diretor e mestre de lagar da marca, Rafael Marchetti.
A acidez não é perceptível ao paladar e não se refere ao sabor ácido, como acontece, por exemplo, com o vinagre, continua Marchetti. Trata-se de um índice químico que mede a degradação do ácido oleico — uma gordura boa para a saúde — no momento em que a azeitona é processada. Quanto maior o tempo entre a colheita e a extração, maior tende a ser esse índice.
— É uma métrica extremamente útil para a indústria, especialmente para cooperativas que recebem azeitonas de diversos produtores. Mas, no rótulo, ela acaba sendo mal interpretada, gerando uma corrida para ver quem tem o número mais baixo, o que nem sempre significa melhor qualidade — completa o diretor da Prosperato.
No entanto, para o presidente do Instituto Brasileiro de Olivicultura (Ibraoliva), Flávio Obino Filho, "a acidez é uma régua de qualidade, sim".
— São concepções diferentes de mercado. Não posso proibir o produtor de divulgar esse percentual. É uma questão de consumo, um parâmetro de qualidade. Agora, para o paladar, não tem diferença — acrescenta o dirigente.
A legislação brasileira permite que a acidez seja omitida, desde que não haja nenhum outro dado químico isolado. Caso o produtor opte por apresentar esse tipo de informação, deve incluir também outros índices técnicos, como peróxidos e extinção específica em ultravioleta.
Mais foco no que importa
No lugar da análise química, a empresa optou por destacar três elementos considerados "mais relevantes" para o consumidor: a safra (indicando frescor do produto), a variedade das azeitonas utilizadas e o perfil sensorial do produto, com atributos como amargor e picância, que de fato são percebidos ao provar o azeite.
— O consumidor ganha mais ao saber quando o azeite foi produzido e de qual variedade ele vem, do que olhando um número que muda com o tempo e que ele não sente no gosto — argumenta ainda Marchetti.
Ainda de acordo com o Ibraoliva, a retirada de acidez do rótulo não é algo defendido pela entidade. Para Obino Filho, "pode gerar confusão ao consumidor final".




