
A Embrapa acaba de divulgar o mapa da erodibilidade dos solos no Brasil. O levantamento mostra o quanto as características inerentes à estrutura os tornam mais ou menos suscetíveis às erosões. A análise se torna uma ferramenta importante na elaboração de políticas públicas. Em entrevista ao programa Campo e Lavoura, o pesquisador Gustavo de Mattos Vasques falou sobre o tema. Confira trechos abaixo.
A pesquisa aponta que os solos do Brasil têm erodibilidade média. O que isso quer dizer?
As classes, os índices de erodibilidade representam a qualidade intrínseca do solo de ser erodido ou não por forças da natureza, principalmente a chuva no Brasil. Esse valor varia desde muito baixo a muito alto. E há situações de solos que têm características intrínsecas que os tornam mais resistentes à erosão, é um solo mais estável. De repente, também ocupa um relevo mais estável, plano. E solos que têm os componentes mais suscetíveis à erosão. Então, depende da característica da localização dos solos, do quanto chove no local, para se ter quanto mais ou menos haverá erosão.
O mapa captura de alguma forma o que aconteceu em razão da enchente de 2024 no RS?
Primeiro, foi uma tragédia que nos comoveu muito, e é difícil, em um evento dessa magnitude, qualquer solo se sustentar no local. Claro que perde muito solo em um evento extremo desse. O mapa representa o que acontecerá em eventos mais corriqueiros. Onde é mais suscetível a erosão? Onde perde mais solo? Principalmente tendo uma previsibilidade de eventos mais tranquilos, não tão extremos. Representa exatamente os diferentes tipos de solo que terão maior ou menor grau de erosão.
Pode dar exemplos?
Solos de encosta são mais erodíveis, os que têm um material mais solto são mais erodíveis. Onde há uma porosidade, um agregado um pouco mais estruturado, solos mais profundos, são menos erodíveis. Por quê? Porque a água consegue percolar, ele consegue reter um pouco mais de água. Claro, estamos falando de eventos normais. Agora, chove cinco dias seguidos, o solo satura de água, fica muito pesado. Aí deixa até de ter o evento de erosão para ter um de deslizamento de terra, uma coisa um pouco mais forte.
O estudo aponta que as áreas com solos mais suscetíveis à erosão estão no Nordeste. O que explica isso?
O mapa que estamos falando agora, explicando de uma forma mais técnica, é um índice que traduz quanto a característica do próprio solo influencia na capacidade de se erodir, de ser levado por uma chuva. Há outros de suscetibilidade à erosão, que leva em consideração não só as características do solo, mas também a do relevo, do uso da terra. E o de vulnerabilidade à erosão traduz uma pressão de uso mesmo. Você pode ter um solo altamente erodível, mas que é mantido, preservado, vai erodir muito pouco. Pode ter um solo pouco erodível, mas que é usado de forma indiscriminada, sem conservação, com manejo, por exemplo, mal feito. Não se faz curva de nível, contorno na hora de produzir, aquele solo você perde mais do que, de repente, um solo do vizinho, mais bem manejado, conservado e que teria uma capacidade intrínseca de erodir maior. Um solo bem manejado é sempre o ideal, cultivado de maneira conservacionista, vai erodir menos. Independentemente de ter alta ou baixa capacidade de erosão. Daí, por que o solo do Nordeste tem erodibilidade maior? Porque a sua característica intrínseca, dissociado dessa questão de chuva, de uso, tem capacidade maior de erodir. Se chovesse muito nos solos altamente erodíveis do Nordeste, estariam se perdendo mais. Essa que é a tradução. Mas, se perdem menos. Por quê? Porque não chove tanto. Você tem a associação entre os fatores.





