
No cenário de tarifaço implementado o que fará mais falta: o mercado americano para o produto brasileiro ou o produto brasileiro para o mercado americano? Ou seja, quem tem mais a perder com a interrupção do fluxo frente a taxas que, na prática, inviabilizam o negócio?
Um dos itens impactados pela medida é a carne bovina. Nesse período pré-aplicação da taxa de 50%, o mercado brasileiro colocou um preço à incerteza, com os valores do boi recuando. As indústrias já pararam de produzir a proteína que iria para os Estados Unidos.
Por outro lado, os americanos estão com o menor rebanho em 80 anos, e o déficit de carne bovina previsto para 2025 é de quase 1 milhão de toneladas, como mostrou recentemente a coluna. Contexto que ajuda a explicar a inflação desse item: conforme divulgado pela rede CNN, a alta acumulada desde janeiro é de quase 9%.
Nesse contexto, quem tem mais a perder? Essa foi a pergunta à sócia-fundadora e estrategista-chefe da consultoria Agrifatto, Lygia Pimentel. A resposta?
_ É ruim para os dois, quase que de forma proporcional. Os Estados Unidos importam 15% (da carne bovina consumida), e o Brasil entra com 28% (da fatia importada). Eram dois parceiros comerciais que estavam se entendendo, progredindo.
A abertura para a venda de carne bovina in natura para o mercado americano saiu em agosto de 2016, após 17 anos de negociação. De lá para cá, os dois parceiros foram alinhando expectativas e expectativas.
Lygia pontua que o grande atrativo dos EUA para essa proteína produzida no Brasil é o fato de serem bons pagadores, com média de preços 24% acima dos demais compradores.
_ Perdemos um mercado que representa 2% da produção (brasileira), isso não muda o ciclo da (nossa) pecuária, mas é um mercado que leva 12% das exportações (em volume) e 14% de receita.
O Brasil precisará se reordenar, e outros compradores deverão bater à nossa porta para compra, mas com preços pagos que não devem repetir os dos EUA que, por sua vez, precisão reforçar as aquisições com outros fornecedores.
Com relação ao preço da arroba do boi gordo no mercado brasileiro, a analista entende que agora se reequilibrou _ saiu de um patamar de R$ 315, R$ 312 para R$ 295. No mercado futuro, a cotação "deu uma reagida", mas "no curto prazo, a gente vê um piso", acrescenta Lygia.
E para o consumidor brasileiro, haverá o repasse dessa redução?
_ Acho que sim, mas não na mesma medida, na mesma velocidada. Mas isso tira qualquer pressão de alta _ diz a sócia-fundadora da Agrifatto.





